Meu amigo, o Brasil deve estar com tudo resolvido mesmo. Só um país sem superfaturamento em obras de metrôs e trens tem tempo para se preocupar com festa zoada de universitários. Só um país com tudo prontinho nos aeroportos, estádios e infraestrutura de mobilidade urbana para receber a Copa do Mundo, sem um real de grana pública para um evento privado, diga-se de passagem, se mobiliza para defender a moralidade perante uma orgia em festa de estudante. Só um país com zero de assassinato consegue se debruçar sobre um assunto tão relevante quanto ritual satânico dentro de campus universitário – 10% de todos assassinatos do mundo acontece em nossa terra.
Como o Brasil tem posições dignas de deixarem os países da Escandinávia babando de inveja, os temas relevantes têm chance de vir à tona. Viva o Brasil!
Para você que não está entendendo nada do que estou dizendo, os alunos do curso de Produção Cultural do campus de Rio das Ostras (RJ) da Universidade Federal Fluminense (UFF) prepararam uma festinha que, cá entre nós, eu gostaria de estar presente. O nome da balada é um achado: Xereca Satânik – A Festa. Após as discussões do Seminário Corpo e Resistência e do 2° Seminário de Investigação e Criação do Grupo de Pesquisas/CNPq de Cultura e Cidade Contemporânea, nada mais justo que confraternizar.
E que festa de arromba a galera produziu.
Os moralistas gritaram, é claro. Uiuiui, tinha gente usando droga! Uiuiui, tinha gente trepando! Uiuiui, tinha ritual satânico. Juro que não sabia que tinha tanta gente ainda vivendo na Idade Média.
Vamos queimar os estudantes por bruxaria! Deus está conosco!
Na boa, quando eu me sinto mal em algum lugar, vou para casa, não fazer mimimi em rede social. Confesso que não gostaria de ver uma performance artística de uma mulher tendo a vagina costurada. Mas não é por que eu não quero ver, que a performance não deva acontecer. Se a universidade não se materializar em um espaço de experimentação e alargamento dos limites do senso comum, não vai ser na programação vespertina de domingo que isso irá acontecer. Se não forem os universitários quebrando com o convencional, isso não virá dos aposentados ou pais de família trintões como eu. Jovens, vocês estão certos.
A atriz da performance vaginal é adulta e estava ali de forma consciente. Não há relato de menores de 18 anos no ambiente. Se formos fechar todos ambientes que têm drogas, que comecemos pelo Congresso Nacional. Se o suposto ritual satânico dentro da universidade é problema, celebrar em nome de Cristo também deve ser pelo princípio da laicidade – três vivas para o Estado secular!
O recalque anda pesado mesmo por nossas bandas. Se eu não concordo, quero a proibição. Se eu não gosto, que não mais aconteça. Se me agride, morte aos infames! Que bela trilha do paraíso da Tradição, Família e Propriedade estamos pegando, viu… E vamos torcer para que os militares saiam novamente da caserna para nos salvar.