E não é que a onda chegou ao Planalto Central? Essa sequência de manifestações fluídas e descentralizadas chamadas de “Ocupa alguma coisa” já tinha sua versão nacional em terras paulistas. Agora a União Nacional dos Estudantes (UNE) puxou uma mobilização nesses moldes que começou hoje e vai até sábado em Brasília. A expectativa é de que cerca de 300 estudantes acampem nos belos gramados da capital federal reivindicando o investimento de 10% do PIB na Educação nos próximos 10 anos. Atualmente, são gastos 5% do nosso Produto Interno Bruto.
Acho a motivação legítima e uma boa bandeira de mobilização, contudo o ponto que quero refletir sobre esse Ocupa é o quão legal deve estar por lá. Naturalmente, legal para quem é adolescente, no máximo 20 e poucos anos. Eu já estou velho para acampamentos mambembes assim. Gosto de algum conforto, chuveiro quente e bons vinhos. Contudo, 15 anos atrás eu me divertiria horrores estando lá no meio. Tive meu período de militância no movimento estudantil. Um pouco no ensino médio, um pouco na universidade. Mas eu era a esquerda festiva clássica. Era muito bom para a organização de festas, mobilizar passeatas, debater ocupações de reitoria. Já a parte programática e de embate me causava certo enfado.
Na hora do ato em si do protesto, eu arrumava algo mais divertido para fazer. Perdi as contas de quantas vezes fui para a Brasília manifestar contra alguma coisa. Só que nunca fui para a rua, pintei a cara ou carreguei faixas. Sempre acabava num boteco com a galera, ou rolava de ficar com uma menina na viagem e preferia fazer algo com a garota, ou ainda iria rodar por Brasília com uns bróders procurando discos. Ou seja, a clássica esquerda festiva. Na volta para Goiânia, vinha debatendo a revolução com as convicções e certezas de um ipanemense depois de duas cartelas completas de chope. E sempre puxava o grito clássico dos anos 90: “Fora FHC!”. A juventude é linda…
Por isso acho legal a molecada ir lá e botar para quebrar. Imagino as festas movidas a pingorante e vinho barato que devem rolar a noite inteira no acampamento. A lendária rodinha de violão com Legião Urbana, Raul Seixas e Chico Buarque. Bom para quem tem essa idade, um perfeito pé no saco para quem já está um pouco mais velho. E dá-lhe Miojo para enfrentar a larica da madrugada!
Sobre a reivindicação em si, nesses tempos de ortodoxia em alta e estagnação econômica no terceiro trimestre, vale pela tentativa de colocar o assunto na pauta nacional. Acho de difícil aceitação pelas condições objetivas. Mas se o movimento dificilmente vai ser bem sucedido em sua pauta política, a farra pelo menos deve valer demais!