No ano passado, quando o Santos havia resistido a ofertas bastante sedutoras do Chelsea e Real Madrid, eu já havia me impressionado com o aspecto histórico do fato. Ontem, com o anúncio de um contrato que garante a permanência do craque santista jogando no Brasil até a Copa do Mundo, confesso que minha surpresa quadruplicou. Na verdade, não se trata de uma questão meramente futebolística. O que vemos agora é uma inversão simbólica muito mais forte para o Brasil do que podemos vislumbrar agora. Não tenho dúvidas de que é mais importante para o Brasil do que para o próprio Neymar e o Santos a permanência do camisa 11 no clube.
E não se trata de ufanismo com viés Policarpo Quaresma. É fato que o Brasil se reposicionou em escala global e agora consegue oferecer condições de um jogador desenvolver uma carreira sem procurar a gringa. Neymar é o primeiro caso de craque de altíssimo padrão a optar por ficar por aqui no seu auge. E imagine só se o Santos for campeão mundial no final do ano. Quanto não vai ficar valorizado o passe do garoto do cabelo esquisito, hein?
Há 30 anos começou a fase em que o Brasil não conseguia mais manter seus craques jogando em campos nacionais. A geração da Copa de 1982 foi a primeira a começar a se internacionalizar com alguma frequência. Zico, Júnior, Sócrates, Falcão e toda aquela galera que deixa saudades a quem gosta de bom futebol passou por uma experiência no exterior, muito embora o auge das carreiras foi nos clubes nacionais aos quais são até hoje identificados. E a própria torcida, quando olha à distância, meio que se esquece dessas passagens internacionais por conta desse forte vínculo dos atletas com os times.
O momento social e econômico do Brasil, com distribuição de renda e economia crescendo a níveis que impressionam o mundo, também favoreceu na decisão de Neymar. O Brasil começa a ter dinheiro disponível para concorrer, ainda não em pé de igualdade mas já com possibilidades de disputa, com as grandes potências mundiais para a permanência de seus ídolos do futebol no País. E por conta de uma série de fatores de ordem cultural, o brasileiro prefere ficar perto da família se for para ganhar um pouco a menos. Para nós, isso tem um valor imensurável. Talvez, outros povos não entendam isso. O fato é que gostamos de ficar perto de nossa família, amigos e pessoas que gostamos. E isso na hora da decisão acaba pesando.
Neymar já tem lugar no panteão dos grandes do clube paulista. Afinal, ele é o herói da Libertadores que o alvinegro praiano faturou esse ano. E já dá para sonhar além: se ele emplacar na seleção e for o herói do sonhado título da Copa em casa, estaremos vendo surgir um ídolo maior que Ronaldo, maior que Romário, do tamanho do Zico e, quem sabe, para concorrer com o porte de… Calma aí. É mais prudente não viajar muito. Depois vão dizer que estou colocando muita responsa nas costas do garoto.
Quem gosta do futebol arte faz fila para ver Neymar em campo. Ele brica com a bola. É gostoso ver o cara jogar, mesmo quando contra nosso time do coração. E se o craque se consolidar por aqui, quem sabe até ganhar o título de melhor do mundo e tudo mais, Neymar será só o primeiro de uma série. Outros craques de outros clubes também optarão por ficar no País. Será ótimo para o Brasil ver novamente os jogadores com a camisa canarinho identificados com um clube nacional, jogando nos gramados brasileiros.
Sorte nossa que poderemos ver de perto o talento de Neymar por mais alguns anos em gramados brasileiros.