Brasília – No último sábado, fui até Brasília assistir o show do mito Stevie Wonder. Toda a empolgação que eu sentia tinha raízes concretas: além de ser fã do trabalho do cara, em especial o momento mágico que ele viveu entre 1970 e 1975, alguns amigos que já haviam assistido Wonder ao vivo e me recomendaram com veemência o espetáculo. Eu sabia que a noite seria especial.
Minha excitação para com o show foi generosamente retribuída pelo genial compositor com sua música inebriante. Ele mostrou que alto nível é para poucos. E ele está nesse time. A canseira de ir para Brasília, o enfado de ver Jason Mraz, a ameaça constante de chuva, a puerilidade do Capital Inicial, a opressão do concreto candango, a festa sem graça de Ivete Sangalo… Tudo isso ficou menor quando Stevie veio ao palco.
Tem artistas que amo e vou ao show somente para presenciar o mito ao vivo. Sei que eles não têm mais a performance dos tempos áureos, mas a folha de serviços prestados vale o ingresso. Gilberto Gil, Milton Nascimento e Johnny Winter são alguns dos que assisti e se enquadram nessa categoria.
Outros fazem valer o show pela inquietude, seja nos álbuns ou na imprevisibilidade da apresentação ao vivo. Caetano se enquadra aqui, pois cada disco existe um esforço claro de reinvenção. Tom Zé e Bob Dylan também estão nessa categoria, pois cada show é uma experiência única.
Alguns artistas têm o mérito da reprodução fiel de seus clássicos em cima do palco, o que não deixa de ter um valor – em especial aos fãs saudosistas. AC/DC, Kiss e Black Sabbath (esse último para minha surpresa) são exemplos de quem levanta essa bandeira.
Stevie Wonder não está alinhado a nenhuma dessas categorias. O show dele vale porque ainda é um grande músico cuja performance está bem próxima da qualidade apresentada da fase áurea da sua carreira. Assim como Paul McCartney, Wonder consegue segurar o público com a qualidade da obra executada no palco. E, é claro, com a força dos hits que construiu ao longo dos anos.
Está tudo que o público quer ouvir ali: Higher ground, My cherie amour, I just called to say I love you e o final acachapante com Superstition. Só com essas músicas no repertório, a festa já estava garantida. Mas ainda tem mais. Some improvisos certeiros, participação da inegavelmente carismática Ivete cantando o clássico Garota de Ipanema, público segurando no gogó orientado pelo maestro Wonder, os metais presentes e matadores… Meu amigo, se aquela banda fosse um time de futebol seria o Barcelona.
Impossível deixar o estacionamento do Mané Garrincha sem um sorriso bobo na face. Não é todo dia que vemos alguém com 63 anos naquele pique.
Agora que Stevie aprendeu o caminho do Centro-Oeste brasileiro, bem que poderia pintar no Serra Dourada na próxima turnê, hein?