Nádia Junqueira
O barulho chama atenção de longe. Um som frenético de madeira que faz até os corpos mais duros se mexerem. Os turistas que estão nas ruas de São Jorge nessa quinta (28/7) à tarde e não foram para as cachoeiras vão atrás do som. Chegando lá, está a família pernambucana vinda de Arcoverde mostrar o samba de coco no XI Encontro de Culturas Tradicionais dos Povos da Chapada.
Coco Raízes de Arcoverde, em seus 12 anos de carreira nessa formação, com turnês na Europa e shows freqüentes em todos os cantos do Brasil, ainda não tinham tocado no encontro que reúne grupos de cultura popular na Chapada dos Veadeiros todo ano.
Vindos de show em Curitiba, o grupo está na vila desde terça-feira. A primeira atividade, de fato, aconteceu hoje: oficinas de confecção e dança de tamancas, as responsáveis pelo som tão peculiar do grupo e pelos gritos de admiração do público. Um trupé, que poderia até lembrar o catira, chama atenção de quem tentou, com dificuldade, aprender como se tira o som de uma dança com tamancas. Essa noite (28/7) o grupo faz um show na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e sábado (30/7) vão ocupar o palco principal.
Vencedores de prêmios de cultura popular e reconhecidos nacional e internacionalmente pelo samba de coco, Coco Raízes de Arcoverde se consolida no cenário da música regional, viaja o país e atrai turistas para Arcoverde em eventos como São João. Recentemente ganharam prêmio na Câmara Municipal, “Arcoverde: terra do samba de coco”. No meio de conversas com um público admirado e vendas do CD que saiu do forno, Iran Calixto, vocalista, falou à Redação das dores e prazeres de se trabalhar com cultura popular.
AR: Coco Raízes já passou por países como Bélgica, Alemanha, França. Esse mês vocês tocaram nos SESCs de São Paulo, Anhembi, Curitiba e fizeram tanta questão de tocar nesse festival. Por quê?
Iran Calixto: A gente tinha curiosidade de conhece e participar do festival. A gente só conhece quando vem, né? Vi muita divulgação desse festival, lá em Pernambuco o povo fala muito. Quando tem muito nome para gente e importante tocar. É uma vitrine, porque tem muitos produtores que vêm ao festival. A gente fez tanta questão de tocar que o cachê que estamos cobrando é uns 25% do que pedimos. Mas é assim, não tocamos só por dinheiro, mas pela visibilidade e também pelas parcerias que vamos fazendo.
E tem outra coisa, não é lá essas coisas tocar no exterior não? A gente fica hospedado em albergues, viajamos por umas oito horas de carro e todo mundo acha chique e que a gente volta com dinheiro. Eu nunca voltei rica do exterior. Quer saber? Tocar aqui no Brasil é muito melhor!
AR: Hoje vocês tocam no Cavaleiro de Jorge. Geralmente os shows lá são mais intimistas e vão até amanhecer. Vai ser isso mesmo?
Iran Calixto: Ah, não. Hoje é só um ensaio. Nem figurino vamos vestir. Pensamos em uns 30, 40 minutos. O show mesmo será sábado. (Pausa). Se bem que se o público estiver gostando, né? A gente vai esticando até quando estiverem animados. (Risadas).
AR: As tamancas são uma grande marca do grupo. Quando começa o show aparecem pessoas de todo canto tentando entender que barulho é esse. De onde veio essa idéia de sambar o coco com esse instrumento?
Iran Calixto: A Ideia foi do Tio Lula Calixto. Antes já existia samba de coco, mas não se usava tamancas, não tinha surdo, não tinha triângulo, só mineiro. O samba veio dos escravos, nas senzalas. Eles amassavam piso da casa de barro fazendo trupé, balançando ganzá e bebendo cachaça. Quando terminava estavam todos bêbados. Qual era a cachaça mesmo, Tio Assis?
Francisco Assis (confeccionando tamancas): Ixi! Tinham muitas.
Iran Calixto: Fale uma!
Francisco Assis: Cai na porta, mocotolina…
Iran Calixto: Essas mesmo! Isso vem dos africanos e cada um dá um formato. Em 1992 Tio Lula resgatou o samba de coco e aí varias famílias formaram um grupo: os Lopes, Calixto e Gomes. Eram umas 35 pessoas e o grupo e se chamava “Caravana”. Mas as danças eram no salão e no palco tinha só instrumentos. Lá para 1999 as famílias se separaram. Daí nós, Calixtos, formamos o Coco Raízes de Arcoverde, os Lopes, as Irmãs Lopes e o Cícero formou o Trupé do Mestre.
AR: Todos convivem bem?
Iran Calixto: Claro! Eles todos estão convidados para tocar em nosso festival (Lula Calixto) em novembro.
AR: E essa formação? Vem de quando?
Antes mulher era só no chão, só dançando. Depois Tio Lula me falou: Iran, você vai subir para o palco. E fui, vestida de homem: com chapéu de palha e tudo! Depois abri a porta para “mainha”, para as outras meninas e levamos as tamancas para o palco. Tio Lula era visionário. A gente sonhava em tocar só nos arredores, nem na capital não sonhava. E ele dizia que a gente ia tocar muito fora. E antes de morrer ele me falou: Iran, “é tu” quem vai tocar esse grupo. E assim eu faço. Tem hora que desanimo, mas aí lembro dele e toco em frente.
AR: Recentemente vocês ganharam prêmio da Câmara Municipal entitulado “Arcoverde: terra do samba de coco” e também, em junho, a população da cidade ficou fula e fez manifestação para prefeito porque não tocaram no São João. Como é ser essa identidade da cidade de vocês?
É uma grande responsabilidade. Cordel (Encantado) surgiu pelo Coco Raízes e todos grupos de lá. Tudo isso vem do resgate que Tio Lula começou e que hoje temos essa responsabilidade de levar adiante.
AR: O novo CD se chama “A Caravana não morreu, nem morrerá”. Como vocês trabalham para que ela e o samba de coco não morram?
Com nossos trabalhos como DVD, CD e vamos retomar o Coco Raízes Mirim. O Ítalo (hoje vocalista, filho de Iran e neto de Damião) começou assim e já tenho dois netos, além dos do Tio Assis. Eu tenho um de seis anos que é o que mais dança trupé e canta. É assim que a gente quer dar continuidade.
Também com o Festival Lula Calixto, que fazemos todo ano e temos o Ponto de Cultura, onde damos oficinas de dança, confecção de tamanca, informática, serigrafia, dança e percussão. Tem criança lá que quando a gente abre o portão do ponto de cultura, já começa puxar a avó e a tia para dançar e só vai para casa quando a gente para de tocar.
AR: No grupo tem pai, avô, tio, irmãos, netos, genro… Como é tocar, trabalhar e viver em família?
É mais complicado do que com os de fora. (Risadas). Porque dá trabalho! A vantagem é que a gente briga, estressa, mas não separa. Às vezes eles querem sair, mas não tem como.
AR: E como vocês conseguem ter reconhecimento nacional e internacional, mas não perderem de vista o trabalho popular?
É muita história para podermos estar aqui… Muitos grupos começam a crescer, sucesso sobe na cabeça e aí eles acabam ou criam coisas nada a ver. Quando uns aqui do grupo começam a se empolgar demais eu puxo para baixo. Quem ta lá em cima é Deus, digo a eles. Quando estamos na cidade, a gente vive como se não tivesse saído, porque pessoal de lá é vaidoso. Poderíamos tirar proveito disso, mas aí perderia o sentido de tudo que a gente faz.