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Te amo

30.01.2012 - 12:42:55
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O novo CD de Vanessa da Mata tem sido a trilha sonora dos meus últimos dias. Ao prestar atenção nas letras das canções, achei “Te amo” bem interessante. Incrível como a cantora consegue falar de verdades nuas, cruas e doídas de uma forma leve, bela e poética. 

 
Em “Te amo” ela trata do medo que as pessoas têm de se casar, de se entregar verdadeiramente a um relacionamento e, de repente, verem o sonho do casamento destruído. De fato, a vida a dois (e aí incluo também a de quem mora junto, pois como diz o ditado, “juntado com fé casado é”) não é nada fácil. 
 
Quando se é um casal corre-se o risco de ver o outro mudar de interesses e de rota, de assistir ao romantismo e ao tesão serem tragados pela rotina, de revelar aspectos da própria personalidade nem sempre agradáveis, de fazer muitas concessões. Tudo isso reforçado pelas estatísticas de divórcio, que aumentam no Brasil e no mundo.
 
O ideal e mais sensato seria permanecer solteiro. Afinal, isso sim é que é tranquilidade. Você vai para onder quer, quando quer, com quem quer. Veste o que dá na telha, come o que dá na telha, fala o que dá na telha. Dorme, acorda e mora onde desejar. Liberdade total, stress zero. Certo? Errado.
 
Trocar o “nós” pelo “eu” pode ter suas compensações, mas também tem seus perigos. Corre-se o risco de parecer uma criança birrenta porque o individualismo do dia a dia não cria espaço para a generosidade, para a capacidade de ceder algo em prol do outro. Ou de parecer um velho chato, que não abre mão de seus hábitos e manias.
 
Corre-se o risco de, num momento de grande fragilidade ou necessidade, precisar contar com a boa-vontade de estranhos, pois não há alguém próximo o suficiente para pedir ajuda sem cerimônia. As grandes alegrias e conquistas também não podem ser motivo de comemoração, pois não há companhia para celebrar.
 
O risco iminente de virar um ególatra também se faz presente. Não existe ninguém para lhe dizer que você não é o centro do universo, que suas opiniões não são as únicas e as mais certas. Também não há quem relativize seus erros e ria deles, que lhe mostre que você tem valor e não é pior que os outros.  
 
Corre-se o risco de ter sempre a mesma visão sobre o mundo e as pessoas, e de, um dia, se ver completamente perdido e sem chão, porque as certezas de antes já não servem mais e não existe alguém que possa apontar outro caminho, uma nova via. Alguém que faça isso meramente por amor, sem mais interesses.
 
Aquele carrão do ano que você comprou corre o risco de se tornar grande demais, porque nunca há outro passageiro. A casa feita sob medida também pode parecer excessivamente vazia, apesar de todas as coisas caras e finas que você comprou com o megassalário que serve apenas para seus gastos pessoais. 
 
Corre-se o risco de morrer de tédio, porque tudo acontece absolutamente como o previsto, sem interferências de nada nem ninguém. De ter tantas opções de caminhos para trilhar, que no final o imobilismo acaba sendo o único rumo, porque a liberdade sem um projeto de vida também pode aprisionar. 
 
Prazer e dor são duas faces da mesma moeda. Não há como excluir uma da outra, apenas torcer para que se alternem num ritmo mais ou menos intenso. E é com essa moeda que pagamos o preço de nossas escolhas. Se o preço será alto demais ou não vai depender mais da nossa capacidade de lidar com perdas e ganhos que da sorte. 
 
Como diz Vanessa da Mata em “Te amo”, “o pior não é não conseguir/ É desistir de tentar”. Abrir mão do sonho de uma vida a dois por medo de se entregar e sofrer pode ser mais frustrante que tentar e fracassar. O risco de dar errado é exatamente o mesmo de dar certo. A diferença é que quando você não arrisca, não se expõe ao pior, mas também não se permite o melhor.
 
O último verso da música diz: “Mas nós somos um quadro de Klimt/ ‘O Beijo’ para sempre fagulhando em cores/ Resistindo a tudo seremos/ Dois velhos felizes/ De mãos dadas numa tarde de sol/ Pra sempre…”. Dê uma olhadinha no quadro de Klimt, no alto da página. Observe cada pedacinho da pintura. 
 
A expressão do casal em “O Beijo” é de pura intimidade e entrega. Repare, entretanto, que eles estão de olhos fechados. Não conseguimos enxergar o que o futuro nos reserva, toda relação é um salto no escuro. Mas se encararmos juntos o abismo, talvez possamos descobrir que somos capazes de voar. Vale tentar.   

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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