Não é muito difícil ficar desanimado com o Brasil. Nosso país é uma eterna promessa futura de glória e grandeza e um presente constante do pior que o capitalismo oferece: desigualdade, violência, destruição suicida de riquezas naturais, lucros privados e prejuízos públicos.
Para evitar espirais descendentes e depressivas de niilismo com a pátria-mãe, criei uma lista de coisas incríveis do Brasil, que sigo abastecendo e à qual volto sempre que preciso.
Pinço aqui aleatoriamente três dos itens que compõem essa lista: o clipe de "A Menina Dança", dos Novos Baianos, o Grande Sertão: Veredas e o Rio Tapajós.
O Clipe de A Menina Dança
Baby Consuelo no clipe de "A Menina Dança"
Sei que foi filmado para a TV alemã, o que é confirmado pela versão disponível no YouTube, com legendas no idioma de Nietzche que apenas acrescentam mais uma camada interessante de sentido a essa jóia.
Ninguém discorda que é na música que aflora o que temos de mais rico em nossa cultura, e os Novos Baianos são uma das grandes expressões disso.
O despojamento do cenário do lendário sítio em que a banda viveu em Jacarepaguá, com as roupas no varal servindo de adereços, um carro despreocupadamente estacionado e o cachorro que circula em meio aos músicos, remete não apenas à vida hippie dos músicos, mas a uma ideia perdida e fora de moda de um Brasil possível na convergência da nossa riqueza cultural e de valores humanistas.
A câmera, em plano-sequência, circula em volta de uma Baby Consuelo que a encara provocadora e numa sensualidade que é produto de uma atitude de quem, desaforo, não leva para casa, como diz a letra.
Não à toa, João Gilberto se encantou pelos Novos Baianos, e eles por João – esse talvez o maior gênio que a cultura brasileira produziu, ao lado de outro João, o Guimarães Rosa.
Grande Sertão: Veredas
Guimarães Rosa (Foto: Divulgação)
Nenhum livro é tão brasileiro e tão universal. Poucos tratam de forma tão profunda de tudo o que realmente importa: do problema do mal, do ódio e da vingança, do amor proibido, de Deus e do diabo. Menos romances ainda conseguem o tipo de amálgama entre forma e conteúdo, entre linguagem e narrativa, logrado por Rosa.
E raras narrativas permanecem tão atuais, inclusive porque, não nos esqueçamos, o Grande Sertão é o Cerrado mineiro e, como costumava dizer o falecido entomologista e ambientalista Ângelo Machado: "se o julgamento de Zé Bebelo acontecesse hoje, ele se daria em meio a uma plantação de soja".
Para os que ainda não tiveram o prazer de ler o Grande Sertão, o julgamento é uma das cenas mais icônicas do romance.
O Rio Tapajós
(Foto: Pedro Novaes)
Do Cerrado, salto para o Pará.
O Brasil existe de costas para o que tem de mais precioso: a Amazônia. Como insiste João Moreira Salles, em seu Arrabalde: Em Busca da Amazônia, nunca incorporamos a região a nosso imaginário coletivo e tampouco desejamos conhecê-la. Conhecimento implica em algum tipo de responsabilidade. Nós, todavia, preferimos manter desimpedido o caminho para que siga o projeto de rapina da Amazônia, em que sua destruição beneficia poucos ao preço de nosso patrimônio comum.
Pois o Brasil deveria conhecer a Amazônia. Para quem deseja fazê-lo, o lugar para começar é o Rio Tapajós, o mais bonito de nosso país. Suas águas azuis e mornas, as areias brancas e o verde da floresta já levaram alguns a falar em um "Caribe Fluvial". Eu, em outra direção, penso que o Caribe é que deveria se chamar "o Tapajós Marinho", pois praias paradisíacas existem em muitos lugares, mas o que ocorre ali, no oeste do Pará, só a Amazônia tem.