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Três reais de falsidade

22.04.2013 - 12:42:59
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Goiânia – Amiga me manda um convite para um coquetel por e-mail e liga para confirmar. “Você vai, né? Será super chique, cheio de gente rica e famosa”. Agradeço e digo que não vou, porque não conheço ninguém. “Você parece um bicho do mato. Que mania de não frequentar as altas rodas, só anda com essa sua turminha”, dispara.

Depois do comentário, escuto um verdadeiro sermão. Ela me diz que preciso conhecer gente de peso e fazer contatos estratégicos, “porque são essas pessoas que nos ajudam a subir na vida, a ficar conhecidas”. Fala que esse meu jeito low profile não vai me levar a lugar algum, que assim vou morrer sem dinheiro nem reconhecimento.
Não adiantou, fiquei mesmo em casa. Sabe a história do “pau que nasce torto, até a cinza é torta”? É o meu caso. Não nasci para colunas sociais, notas em revistas e festanças com a “nata da nata”. Não nasci para puxar-saco de ninguém, para fazer caras, bocas e média para conseguir a atenção de quem quer seja.
Hoje em dia isso é um defeito. Bom mesmo é ser enturmado com os poderosos, frequentar todas as festas que aparecem e fazer cara de quem acabou de sair de um comercial de shampoo. A cara feliz, de quem não tem problemas, maquiada, com perfume importado e roupa chique que a gente finge que é casual e usa sempre.
Vou não, quero não, posso não, minha paciência não deixa, não. Minha vida já é tão corrida, tão estressante, que o pouco tempo livre que me resta vou perder com gente que não conheço, que não me diz nada e que, provavelmente, deverá pensar o mesmo ao meu respeito? Só para dizer que sou “in”? Sem chance.
Ir a um lugar apenas para dizer que eu estava lá, somente para que as pessoas me vejam e saibam que meu nome é Fabrícia Hamu e sou jornalista definitivamente não está entre as minhas prioridades. Se tiverem de me conhecer, que seja por algum tipo de afinidade ou pelo meu trabalho. De outra forma, não vale a pena.
Me deixem com a “minha turminha”, que nada tem de rica nem de famosa. Fazemos nosso churrasco na laje e nos divertimos horrores. Quando o tempo esquenta, chamamos a UPP e rola uma pacificação rápida. Minha comunidade anda de carro popular parcelado em 60 meses, conta os cobres no final do mês e vê que está faltando grana. Junta dinheiro para viajar e ainda divide o resto em 12 meses. Mas é feliz e me faz feliz, e é isso o que importa.
Quando a coisa aperta, são esses poucos e bons, anônimos para a maioria, que me acolhem e me acodem. Quando o triunfo chega, são eles também que comemoram verdadeiramente minhas conquistas, sem um pingo de inveja nem de maledicência. Me defendem, me protegem. São eles que merecem o melhor de mim.

Para o restante, uma convivência cordial basta, porque educação cabe em qualquer lugar. Se não me acharem simpática, bacana ou competente, sinto muito. Wander Wildner diz que não consegue ser alegre o tempo inteiro. Eu não consigo ser legal o inteiro. E desconfio muito de quem parece ser.
Essas figuras que estão em todos os lugares, conhecem todo mundo, circulam em todas as rodas, não criam polêmica, dizem não ter desafetos e vivem com um sorrisinho no rosto me causam medo. Já soube de muitas histórias em que tanta gentileza pela frente se converteu em veneno e fofoca pelas costas. 
Ser uma unanimidade não é nem nunca foi meu objetivo. Aliás, acho que não é objetivo de ninguém que pretende ser verdadeiro ou transparente. Quem tem personalidade própria não fica em cima do muro só para se dar bem, não precisa afagar o ego de quem não admira só para levar vantagem.
É por isso que tenho tanto orgulho dos meus leitores. A turma dos que gostam do que escrevo aqui está sempre presente, faça chuva ou faça sol, compartilhando suas histórias e emoções sem travas. Já a turma que não gosta desce a ripa sem medo, mostra seu desagrado sem papas na língua e defende seu ponto de vista até o fim.
Sim, podem me chamar de bicho do mato. Talvez eu seja isso e muito mais. Podem me criticar por não fazer uma network poderosa, por ter um círculo de amizades restrito. Talvez eu não me esforce o suficiente para aumentá-lo mesmo. Só não me chamem nunca de nota de três reais. É que falsidade aqui passou longe.   
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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