Zurique – Um grande amigo teria recentemente completado 50 anos. Eu o conheci ao entrar na Escola de Comunicação da UFRJ. Fazíamos parte da mesma turma, a dos anarquistas, que encontrava mais inspiração e sabedoria nas horas passadas em volta do laguinho do que nas salas de aula.
O laguinho era uma fonte de água, situada em um dos pátios internos da Eco que ocupava uma parte do Palácio Universitário da Praia Vermelha – pomposo edifício neoclássico do século XIX, construído em 1842 por D. Pedro II . Um lugar fascinante. Longos e altos corredores decorados com azulejos portugueses, paredes cor-de-rosa, piso xadrez de cerâmica, enormes portas e janelas de madeira, jardins ocultos, pedras esculpidas, metais torneados, em cada detalhe muita história. Os pátios cercados por arcadas, com seus jardins e fontes mal cuidados, decadentes, eram um lugar perfeito para nossas longas divagações.
A época era também especial – 1984. Ano de Diretas Já, de Comício da Candelária, ano de Tancredo Neves, ano dos brasileiros acreditarem que havia sim, uma saída do túnel. Túnel violento de duas décadas de ditadura. Vivíamos uma época única, época de “abertura”, de “anistia”, sentíamos intuitivamente que algo importante estava acontecendo a nossa volta, mas não tínhamos ainda a consciência exata, palpável, de suas dimensões.
Fazíamos parte do show, sem sabermos. Éramos parte de um contexto histórico, sem termos realmente noção. Sentíamos e aproveitávamos intensamente aquele clima de liberdade, de descoberta, de anarquia, de quebra de padrões, de negação da velha anacronia direita x esquerda, de reinvenção de regras. Na época, não imaginávamos ainda como aquele momento seria fundamental para todos nós.
Lembrei-me de tudo isso há cerca de um ano e meio quando, ao comprar uma revista no aeroporto, antes de embarcar, descobri uma biografia recém lançada. Atravessei o Atlântico lendo, cheguei em casa quase terminando e me emocionei muito. Era sobre o meu amigo, uma pessoa realmente especial. Alguém que, sem fazer nenhum esforço, atraía as pessoas à sua volta. Sua presença inspirava confiança, simpatia, bom-humor. Estar ao seu lado era simplesmente bom. Ele era o centro da nossa turma, o ponto de gravidade em torno do qual giravam as muitas festas, concertos, viagens.
Ele tinha uma simplicidade que deixava qualquer um à vontade. Era ingênuo e sarcástico ao mesmo tempo, cordial e brincalhão, sério e engraçado. Preferia jogar xadrez a assistir aulas, futebol a semiótica. Era comunista de coração, sem ser esquerdista diletante. Não perdia a oportunidade de fazer piadas, nem que fosse sobre assuntos dos quais, naquela época, não se costumava rir – a ditadura, os homossexuais ou o enrustido racismo brasileiro. Era um provocador, sem precisar provocar.
Como alguns já devem ter percebido, esse amigo era o Bussunda. E o conheci vendendo um jornalzinho nos corredores da faculdade chamado “Casseta Popular”, se não me engano, ainda mimeografado. No início fiquei chocada com o nome e as piadas escrachadas até perceber a leveza que aquilo tinha, o humor despudorado e a graça inofensiva do autor.
Em nosso Centro Acadêmico – assumidamente caótico, anárquico e aveso à politicagem estudantil dominante – preferíamos fazer festas regadas a boa cachaça e boa música. Passávamos também horas sentados nas escadas de pedra na entrada do prédio. Muitas vezes, enquanto conversávamos, gostava de fazer tranças em seus cabelos e o chamar de Obelix. Mas ele reclamava. Até o dia em que, antes de irmos ao Maracanã assistir a um Fla-Flu com a galera, passamos em sua casa e descubro, em um lugar de honra no seu quarto, um boneco do Obelix. Ele me olhou sem graça e caiu na gargalhada. Nunca mais reclamou das minhas tranças.
Antes de tudo, era um flamenguista de primeira – as paredes do seu quarto eram pintadas de vermelho e negro. Tive momentos inesquecíveis na sua companhia, no meio da torcida rubro-negra, sendo xingada e recebendo copos de papel na cabeça, cada vez que me levantava para torcer. Momento para ele solene. Seu jeito de menino grande, bonachão, desaparecia, seu rosto tornava-se sério. Não era hora para brincadeiras. Aquilo era futebol!
Estávamos também juntos na primeira viagem que fiz ao nordeste sozinha. Com alguns amigos, alugamos uma casinha de dois cômodos em Trancoso, praticamente só paredes e telhado. Dormíamos no chão de cimento em sacos de dormir. A única cama disponível era revezada a cada noite por duas pessoas. Quando tivemos que dividí-la, achei que não conseguiria dormir por falta de espaço e possíveis roncos. Mas Bussunda não só dormiu silenciosamente, como conseguiu a proeza de deixar o maior espaço para mim, apesar de ter o dobro do meu tamanho. Era um verdadeiro gentleman, como poucos.
Era culto, sem pretender ser intelectual, inteligente, sem ser arrogante, engraçado sem fazer esforço. Especial, muito especial. Seu humor era autêntico, independe de mídias, tinha algo de sábio. A última vez que o vi, alguns anos depois de sair da faculdade, foi na praia de Ipanema vestido de Papai Noel. Estava com sua esposa, também uma antiga colega, participando de uma manifestação política. Conversamos rapidamente, mas nas poucas palavras que trocamos, ele percebeu o momento pelo qual passava. Como sempre, enxergava as pessoas pelo avesso, além das máscaras. Teria ainda muitas histórias a contar, mas o espaço seria pequeno – mesmo que fosse um livro – para puxar todos os fios de uma vida tão vasta.
Não acompanhei sua carreira fulminante, nem vi sua filha crescer, mas quando soube que tinha partido, engasguei, senti um aperto no peito que demorou muito a passar. De vez em quando, imaginava-o passar voando pela janela, vestido com a camisa do flamengo, em direção ao Brasil. Dava-lhe um tchauzinho. Sinto muito sua falta, não do humorista do Casseta & Planeta que pouco conheci – pois já morava fora do Brasil – mas do amigo, que como toda pessoa realmente grande, não se levava muito a sério. Um ser humano incomparável, que teria completado agora 50 anos, mas saiu antes do final da festa. Por pura modéstia.