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Um mercado de trabalho arcaico e injusto para as mulheres

09.03.2022 - 10:53:01
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O mapa de gênero do mercado de trabalho brasileiro é arcaico e injusto. Arcaico porque sua configuração reproduz uma estrutura que desvaloriza o lugar e o papel da mulher no campo profissional. Injusto, a começar por esta razão, enfileirada por muitas outras, incluindo motivos na seara do imoral. Isso porque não é possível falar sobre a mulher no mundo do trabalho, sem considerar antes, o seu lugar no próprio mundo, frequentemente alvo de ideias e práticas machistas explícitas, que a vê como um objeto, e não como uma protagonista da vida em sociedade. Esta é, certamente, uma das principais reflexões a serem feitas na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, 8 de março.
 
Mais de três décadas depois, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, quando se estabeleceu o princípio da isonomia e as mulheres tiveram os seus direitos trabalhistas positivados, o que já foi muito tarde, com a instituição da igualdade de gênero e da não-discriminação em função do sexo, o que experienciamos ainda hoje viola totalmente tais direitos. A proibição da diferença salarial vai de encontro com o dado matemático do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE (2019) de que, nesse ano, as mulheres receberam, em média, 77,7% do que foi pago aos homens. Nas funções e cargos que representam maiores ganhos, como diretores e gerentes, elas foram remuneradas com 61,9%. Ou seja, quase 40% do valor do seu trabalho foi usurpado. Não há outra palavra.
 
Já a não-discriminação convive com a arbitrariedade de mulheres sendo preteridas na hora da admissão para um emprego porque, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego do Dieese, alguns empregadores preferem os homens na hora de contratar, em razão da mulher ter jornada dupla. E todos nós já estamos escolados de saber qual é essa outra jornada: o trabalho com as atividades domésticas e os cuidados com os filhos. Ou seja, ela é penalizada duas vezes. É eleita naturalmente como responsável pelas tarefas do lar, e depois, deixa de ser contratada exatamente por esse motivo.
 
E o pior é ainda nos darmos conta de que isso não tem nada a ver com grau de escolaridade. De acordo com a pesquisa Estatísticas de Gênero do IBGE, publicada em março de 2021, no Brasil, o nível de escolaridade das mulheres é mais elevado do que o dos homens. Enquanto 21,5% deles frequentaram o ensino superior; entre elas, esse percentual é de 29,75%. Toda essa desigualdade, visível do ponto de vista cultural, social e matemático, faz com que o país figure na 130a posição, em um ranking com 153 países, em relação à igualdade salarial entre homens e mulheres que desempenham funções semelhantes, de acordo com o Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero (2020), do Fórum Econômico Mundial. 
 
Se aprofundarmos todas essas análises e fizermos recortes, vamos observar abismos ainda maiores. Como estão as mulheres negras, indígenas, ribeirinhas, idosas, das cidades periféricas nesse mapa? Ainda mais subjugadas, alvo de desigualdades e de discriminação acentuadamente maiores do que já são, de um modo geral. E até agora, ainda nem falamos dos abusos e assédios morais e sexuais sofridos pelas mulheres no local de trabalho. Conforme a Agência Patrícia Galvão (2020), cerca de 40% delas já foram xingadas ou ouviram gritos em ambiente de trabalho, contra apenas 13% dos homens.
 
Infelizmente, interessa a uma parcela da população, incluindo pessoas físicas, corporações, instituições civis e governamentais, que se beneficia de toda essa desigualdade brutal de gênero, mantê-la na invisibilidade, para continuar tirando proveito do que ele gera de privilégios para tal quinhão. E uma forma de combater a invisibilidade de um fenômeno tão crucial na vida em sociedade é, exatamente, dar visibilidade a todas as suas faces, incluindo suas mazelas e os seus pontos positivos, ainda que fora da curva.
 
Na Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de Goiás (Seds), pasta em que estou secretário, das sete superintendências, seis são ocupadas por mulheres. A experiência de gestão que essas superintendentes proporcionam diariamente? Capacidades analítica e de decisão, comprometimento, liderança, pró-atividade, foco, senso de equipe, agilidade, sensibilidade, disposição para aprender, resultados…
 
E como a visibilidade se concretiza com nome e sobrenome, aproveito a oportunidade para manifestar o meu reconhecimento do lugar de direito da mulher, nominando as superintendentes da Seds: Kérima Ferreira Sobrinho (Superintendência do Sistema Socioeducativo), Silvana Fuini (Superintendência de Desenvolvimento, Assistência Social e Inclusão), Rosi Guimarães (Superintendência da Mulher e da Igualdade Racial), Rita de Cássia Borges Melo (Superintendência de Gestão Integrada), Ana Luísa Freire (Superintendência dos Direitos Humanos) e Cássia Bessa (Superintendência de Gestão e Controle de Parcerias, Contratações e Transferências). Das 42 estruturas funcionais de destaque da Secretaria, 24 são ocupadas por mulheres, cujos salários se equiparam aos dos homens. 
 
Pode ser que a realidade da Seds seja aquela tal gota d 'água em um oceano de obstáculos estruturantes enfrentados pela mulher diariamente. E eu acredito que seja mesmo. Mas o movimento da maré desse oceano está mudando. Provavelmente, aqueles que sempre nadaram de braçada nesse mar e nunca reclamaram da liberdade e do poder que gozavam para isso, podem ver exageros nas mudanças. A esses, eu diria: acalmem-se, o mar nasceu pra todos. E todas.
 
A luta para transformar o mapa de gênero do mercado de trabalho brasileiro não é tarefa a ser deixada só para as mulheres, mas para os homens também. Se formos honestos, é uma tarefa, principalmente, para nós, que promovemos a retroalimentação de uma estrutura social que nos privilegia. Seja na rotina da vida profissional ou pessoal. E essa rotina não pode continuar arcaica e injusta. A mulher precisa ser reconhecida como protagonista da sociedade, em todas as suas frentes.
 
*Wellington Matos é secretário de Estado de Desenvolvimento Social do Estado (Seds), do Governo de Goiás
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por Wellington Matos

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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