No final de semana, coloquei meu computador num shuffle de tudo quanto é MP3 que tenho no HD. São alguns bons gigas de som que tenho ali. Tudo quanto é coisa que você imaginar pode pintar. Algumas vezes, nem sei direito o que é aquilo que está tocando. Vai de black metal norueguês a samba dos anos 30, de música caipira do sertão de Goiás a hip hop treta novaiorquino, de banda indie desconhecida até mesmo no bairro onde a mesma ensaia à figurão absoluto da MPB. Meu gosto é vasto, meu ouvido absorve tudo e consigo criar sentido e ver beleza nessa mistura doida. Coisa de gente doente da cabeça, como é meu caso.
Nesse rodízio musical absurdo, rolou uma música que conheço há mais de dez anos, mas tinha pelo menos uns oito que eu não me atentava a ela. Posso até ter ouvido o som nesse período, mas foi aquela audição desatenta do dia a dia, quando você está com a cabeça envolvida em um milhão de problemas e correrias do cotidiano. A música acaba sendo só um pano de fundo para o resolver das atribuições profissionais que todos temos. No final de semana, curtindo um astral sem maiores compromissos, me atentei aos detalhes da música. E aquilo me incomodou profundamente.
A música fala de incesto. Não em tom crítico, mas jocoso, engraçadinho, querendo fazer humor com o fato. Não consegui deixar que ela acabasse. Fui ao computador e passei para a próxima faixa. Fiquei constrangido pelo que estava ouvindo. Achei ofensivo, me agrediu e eu não queria perder o climão do final de semana por conta de uma música. Passei adiante e tentei seguir no timbre da folga.
Mas não deu mais tempo. Era tarde. A reflexão ganhou minha mente e nem seu eu batesse a cabeça na parede iria parar de refletir sobre isso. Por que tempos atrás, quando conheci a música, eu não pensava assim. No momento em que ouvi pela primeira vez, percebi do que tratava a letra. Mas aquilo não me agrediu. Passou batido. Eu achava até divertido. Hoje, mudei de opinião. Me incomodou.
Em dez anos, tudo muda muito. A idade, a paternidade, o aparecimento de alguns fios brancos de cabelo, a chegada da barriga, os compromissos de um pai de família… A tão falada maturidade, que antes eu definiria como bundamolice. Hoje, não dá para achar graça de uma coisa que me é tão cara. Na iconoclastia juvenil, tudo era festa. O cenário atual é diferente. Não é mais para mim esse tipo de piadianha. Acho que ela deve continuar sendo feita e quem se diverte com ela, que seja feliz. Estou velho demais para rir disso e jovem demais para morrer.