Quando chega a sexta-feira, o lugar mais agitado de Bragança é a rodoviária. São mochilões e malas de rodinhas dando cores às ruas que desembocam na estação. Um dos motivos é que Bragança não oferece muitas opções de lazer no fim de semana. A programação é quase a mesma que temos durante a semana. (Apesar de ter ficado sabendo que aconteceu um show de chorinho por aqui fim de semana passado. Eu perdi). O segundo é que são muitos estudantes de fora, daqui de perto, outros um pouco mais de longe, que vão para casa visitar família. O terceiro é que, muitos, como eu, querem aproveitar o fim de semana para gozar das curtas distâncias europeias. O que fizemos fim de semana passado.
Todo dia que vou para aula vejo a placa: seguindo reto desemboco na universidade ou na Espanha. Oi? Animador, não? Dirigindo 20 km na autoestrada e pronto: mudamos de país. Então alugamos três carros, cinco brasileiros em cada, 33 euros por pessoa para bancar a locomoção e pronto. Passamos um fim de semana em Zamora e Salamanca. Era como ir ali, em Pirenópolis. Eu sei que não é a primeira vez que manifesto meu encantamento com as curtas distâncias, mas é que, poxa! Moro em Goiânia, longe de tudo. Com 1h30 eu vou a Morrinhos visitar minha vó, entende? De repente, vinte minutos, estou na Espanha!
Bom, mas o mais interessante são as mudanças em apenas 65 kilômetros. A começar pela língua. Apesar de que, friso aqui, por estarmos na fronteira, em Bragança se diz expressões parecidas com espanhol, como zumo (suco), sítio (lugar) e borracho (bêbado). Mas voltando, quando chegamos em Zamora, tivemos que pedir informação para chegar ao hostel. Aí que me dei conta: putz! Não é mais português, vou ter que enrolar no portunhol.
Bom, e tudo dá certo quando se tem apenas seis meses de estudos, força de vontade e muita cara de pau. Bota a lingüinha entre os dentes quanto tiver c na palavra, não se esqueça de trocar o v pelo b, ção por ción, imite a entonação que vão até elogiar sua comunicação. Não, não estou orgulhosa de enrolar o espanhol. Nem eu, nem meus companheiros de viagem. Tanto que quarta-feira, na aula de Espanhol I, éramos dez brasileiros matriculados. Cinco estiveram na viagem.
Aí, chegando em Zamora, toda aquela coisa linda que Europa proporciona. Castelo em ruínas, igrejas imponentes, becos históricos muy hermosos e o que é tradicional na Espanha: as plazas mayores. A de Zamora foi um aperitivo para de Salamanca. Aliás, essa cidade laçou meu coração. É lá que existe umas das universidades mais antigas do mundo. Sendo assim, quando você anda pelo meio do centro histórico, anda, concomitantemente, pelo campus universitário. Não dá para acreditar que há mesmo aulas naqueles prédios lindos e antiguíssimos. E a cabeça vai longe em pensar em toda gente que passou por aqueles corredores.
E, como um bom turista, você não pode ir embora de Salamanca sem tentar encontrar a rã na fachada da universidade. Em meio a um monte de ornamentações, lá se encontra ela. (Não vou falar onde). Ninguém sabe porquê ela está lá, talvez seja um símbolo de alguma sociedade secreta da época. Mas só talvez. E aí reza a lenda que o estudante que encontrar a rana terá sorte no curso. E se você já for formado, pode fazer um pedido que será realizado. Eu não encontrei. Até fui paciente, procurei por uns 50 minutos, mas sou míope e, enfim, não tive sorte.
Mas eu estava falando da Plaza Mayor de Salamanca: dizem que é a mais bonita da Espanha. Movimentada noite e dia. Quando chegamos, de tarde, havia concurso de break dance. Crianças, idosos, jovens, famílias: todo tipo de gente dando vida à plaza. E numa cidade essencialmente universitária, a noite não poderia deixar a desejar. Como não deixou. Eu e mais três amigos nos perdemos do bando brasileiro à noite, o que foi interessantíssimo. Entramos em nove pubs/discotecas diferentes. Um frente ao outro, preenchendo os becos ao redor da Plaza Mayor. Todos cheios, boa música, cada um com sua identidade, seu público. Ah! Mas eu dancei kuduro na Espanha também, tá? Mas também ouvi Janis Joplin, por exemplo.
O que achei estranhíssimo são umas boates terem umas funcionárias de lingerie dançando no palco, oferecendo bebidas, sensualizando com os homens. Me senti num cabaré. Mas, cá entre nós, que tanto de gente linda nessa Espanha. Crianças a idosos: se não eram bonitos, eram elegantes, no mínimo. De encher os olhos. E, mulherada, sabe aqueles homens que você acha que nunca vai ver um ao vivo? Me apaixonava de 15 em 15 minutos. Dos outdoors e revistas, diretamente para as ruas.
E, por fim, comi uma boa paella. Porque a gastronomia tem que entrar na rota turística. Tudo bem ceder aos fast foods, ainda mais para economizar, mas vale muito conhecer um país pelos talheres e taças. Eu tenho o defeito de sofrer a cada cidade que deixo, sempre acho que o tempo foi curto e que queria ficar mais. Mas não senti isso com Salamanca, porque tenho certeza que volveré pronto! Mas com um espanholzinho mais razoável, espero eu.
Um pulo na Espanha
*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).