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Um vale qualquer na Mantiqueira

22.07.2025 - 07:56:38
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À minha frente, a pequena varanda com piso de madeira parece flutuar no nível da copa das árvores. Uma pequena mesa, duas cadeiras e a rede estendida esperam pacíficas a xícara de café, o livro e o corpo cansado.
 
Logo adiante, os topos das árvores ainda estão na sombra — 1.500 metros de altitude, início dos trópicos meridionais, nove graus de temperatura e já essa imensa diversidade de vida. Com um golpe do olhar, conto pelo menos quinze espécies vegetais diferentes.
 
Mais além, a montanha, abrupta, quase vertical — mas basta que a inclinação se suavize um pouquinho para que aquilo que a água arranca mais acima se acumule na encosta e ofereça solo suficiente para a vegetação se agarrar. Muita inclinação: gramíneas e, no máximo, arbustos; menos inclinação: Floresta Atlântica.
 
À direita, a montanha escorrega radicalmente numa aresta de 45 graus, direto até onde o longo vale começa a se abrir. As cores passam do marrom quase cinza do gnaisse ao branco das intrusões quartzosas, ao verde denso da mata, ao amarelo do capim ressecado de inverno, ao verde granuloso de um bosque de araucárias e, finalmente, ao marrom da encosta que mergulha rumo ao riacho que não vejo, mas que deve estar lá embaixo.
 
À esquerda, o morro não mergulha: rola suavemente para um colo de vegetação rala, antes de tornar a subir rumo a seu vizinho, de cume mais agudo e completamente despido de árvores — é só capim amarelado e pedra.
 
De onde as vertentes dos dois se encontram, a meio caminho, desce, serpenteante, uma drenagem. E ali, claro, é onde as árvores são maiores e a floresta ganha seu verde mais escuro. Correrá água sempre ali, ou só no verão, abastecida pelas tempestades? Quase no alto, uma árvore-rainha se destaca entre suas irmãs. O tronco claro sobressai do dossel, de resto homogêneo, e reflete, orgulhoso, a luz do sol da manhã. De que espécie será? Um jequitibá, uma figueira-brava, um cedro?
 
Imagino a água fria à sua sombra, rolando entre as pedras; o ar gelado da mata e seu silêncio, só quebrado com respeito pela brisa e pelo canto do sabiá-laranjeira, do tiê e do coleirinho.
 
Atrás da linha riscada pela montanha, há apenas o céu profundamente azul de inverno. Também tento visualizar a vista lá do alto. Para cá, com alguma atenção, eu veria nossa casinha quase escondida em meio à mata, denunciada pelo fio de fumaça da chaminé; e veria tudo o que não vejo: o vale mais além, os olivais desta fazenda e os cavalos e vacas pastando mansamente. Veria também a cabeceira mais alta deste vale e, talvez, em algum ponto no seu fundo, o reflexo do sol nas águas do rio, onde ele se avoluma. Veria outras casas, algumas penduradas nas encostas, outras bebendo da água lá embaixo. E pensaria na vida nessas serras em algum tempo no passado, ainda mais lenta e mais envolta no mistério.
 
Para o lado de lá, divisaria outro vale, mais profundo, mais cavado e mais selvagem — a mata brava escondendo seus segredos, as escarpas rochosas defendendo seus caminhos.
 
Mas volto para o aqui e o agora. Faz frio, e tenho os pés gelados. É hora de jogar mais lenha à lareira e ferver mais água para o café.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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