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Uma verdade inconveniente

19.11.2012 - 10:27:27
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Goiânia – O brutal assassinato do ativista gay goiano Lucas Fortuna, morto a facadas neste final de semana em Pernambuco, tem todos os indícios de um crime homofóbico. A vítima, encontrada entre as praias de Gaibu e Cabo de Santo Agostinho, apresentava várias marcas de violência no corpo e não teve nenhum de seus pertences roubados.
 
Com 28 anos de idade, Lucas formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e destacou-se por sua luta contra o preconceito aos homossexuais. Gay assumido, foi o fundador do Grupo Colcha de Retalhos da UFG, diretor das ONGs ADGLT e AGLT e defensor incansável do PLC-122, projeto em tramitação no Congresso que criminaliza a homofobia.
 
A morte do jovem serve como reflexão para uma sociedade que acolhe e protege os heterossexuais homofóbicos. É o comportamento doente de um grupo de pessoas ditas normais e morais que crimes como este evidenciam, não o “problema” de uma orientação sexual voltada para pessoas do mesmo gênero.
  
A questão dos homofóbicos não é que eles não sabem lidar com a diversidade do mundo: não sabem lidar com a diversidade de medos e dúvidas de si próprios. Estudos sobre a causa da homofobia apontam que os homossexuais colocariam em xeque as certezas e angústias de muita gente, que não aceita a própria fragilidade.
 
Uma das causas de tanta raiva dos homossexuais seria um comportamento defensivo da própria sexualidade. A pessoa não tem certeza se é heterossexual, mas não quer encarar isso. Ao se ver diante de alguém que assume o fato, se sente desconfortável e passa a defender cegamente sua orientação sexual para se afirmar. 
 
Outra razão apontada é o fato de os homossexuais questionarem a moral e os “bons costumes” vigentes. Interessar-se por alguém do mesmo sexo seria “imoral”. Mas o homofóbico que luta pela moralidade não deixa de entrar em conflito, pois o que seria mais imoral e socialmente inaceitável: ser gay ou espancar até a morte quem é? 
 
Há também a questão religiosa. Ser homossexual é considerado um pecado grave em vários cultos e seitas. Novamente, não se foge do conflito: assediar moralmente e espancar um gay até a morte em nome de Deus ou seguir os ensinamentos de “não julgueis para não serdes julgados” e “amai o próximo como a ti mesmo”?
 
Outra razão para a homofobia seria o fato de o gay evidenciar qualidades femininas que a sociedade machista tende a menosprezar, como a capacidade de conciliação e a doçura. Manifestas em um homem, elas subvertem a ideia de que eles seriam durões e frios e de que mulheres são seres chorosos e sentimentais. 
 
Como se vê, um gay assumido incomoda muita gente, porque desperta temores e conflitos profundos e dolorosos. Os mal-resolvidos, os inseguros, que para conseguirem sobreviver usam de um reducionismo existencial e dividem o mundo em bem e mal, certo e errado, entram em curto-circuito diante de um homossexual. 
 
Ao chamarem os gays de aberrações e doentes, os homofóbicos denominam-se a si mesmos. A raiva que expressam é fruto da constatação de suas próprias fragilidades e incertezas. Alargar horizontes é complicado, crescer dói. Viver baseado em crenças e dogmas é mais seguro, mais cômodo. 
 
Um gay assumido não é aquela caricatura afeminada e escandalosa que os homofóbicos pintam. É alguém que decidiu expor publicamente o que há de mais íntimo na vida de um ser humano – sua orientação sexual – para permitir às outras pessoas o direito de fazerem o que quiserem da própria sexualidade. 
 
Não é divertido ser gay assumido. É doloroso, exige coragem e determinação extremas. Além disso, exige de quem cerca esse homossexual uma mudança de comportamento. É que não dá mais para ser hipócrita, para fingir que o mundo se divide em preto e branco e não num arco-íris de cores.
 
Mas nossa sociedade precisa da hipocrisia. Ela necessita de padrões e estereótipos que mantenham o “mundo em ordem”, ainda que saiba que eles sejam falsos e não nos tornem mais felizes. Um gay assumido é um tapa na nossa cara hipócrita e infantil. Ele exige que encaremos a verdade inconveniente de que nossas crenças e desejos não governam o universo. 
 
Olho para os gays mortos e violentados e tenho vergonha de muitos ditos heterossexuais que circulam por aí. Eles refletem o desespero e a crueldade que tomam conta dos inseguros e frustrados. Os homossexuais nos deram espelhos e, como dizia Renato Russo, “vimos um mundo doente”. Uma imagem que causa tanta perplexidade, que tentei chorar e não consegui.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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