Fui do time dos que comemorou a decisão de Neymar de ficar
no futebol brasileiro na penúltima investida gringa atrás do craque. Percebi
aquilo sob a ótica sociológica, uma inversão no papel do futebol de nosso País:
antes exportador de talentos para países de peso no esporte bretão (Itália,
França, Alemanha, Espanha…) e outros de nem tanta camisa (Ucrânia, Arábia
Saudita, Japão, China…); agora revelador e mantenedor.
Achei que era o ponto
de inflexão, quando abandonaríamos a lógica plantation
com a bola nos pés. Eu estava enganado.
A verdade é que não estamos preparados para ter em nossos
campos alguém do quilate de Neymar. Até temos grana para concorrer com os
gringos. Mas quem disse que dinheiro é tudo?
Nosso calendário é uma zona,
nossos gramados sofríveis, nossos estádios deprimentes, nossa torcida sem
educação, nossos árbitros pessimamente preparados, nossos cartolas
interesseiros, nossa confederação caso de polícia. Tenho certeza que todos
esses fatores entraram na conta de Neymar quando foi avaliar as possibilidades
de sua carreira.
Precisamos de cabeças inteligentes gerindo a burocracia do
futebol brasileiro. Caso contrário, seremos sempre os novos ricos da pelota:
com grana no bolso, decisões questionáveis e se contentando com migalhas vindas
do Velho Mundo.
Sim, migalhas, pois já há cerca de 30 anos não vemos nossos jogadores
em seu auge de carreira em gramados tupiniquins. Antes a desculpa era
econômica. Não é mais. Hoje é mais vergonhoso. É nossa completa incapacidade
gerencial de fazer algo minimamente decente.
Urge melhorar inúmeras coisas em nosso futebol. O único
ponto em que avançamos foi na captura de receitas. Afinal, com a melhoria
econômica do País por inteiro, as empresas precisaram investir mais em
propaganda.
Não tem nada que dê mais mídia espontânea que futebol. Além disso,
tivemos o boom do pay-per-view, o que
favoreceu o acréscimo da grana que vem da televisão.
E o começo da melhora deve
vir… do começo! Nossas categorias de base podem render muito mais do que
atualmente produzem. Somos 200 milhões de apaixonados por esse esporte. Temos
farto número de sonhos de garotos e garotas que querem mais que qualquer outra
coisa brilhar nos gramados.
Mais inteligência nas peneiras e no treinamento da
molecada renderia frutos interessantes. Não estamos bem na geração de novos
talentos. Basta ver a crise que todos nossos times e a Seleção Brasileira vivem
dos meias ofensivos.
O caso Neymar mostrou que salário não é tudo. Torço para que
esse ano de Barcelona ajude o craque a arrebentar na Copa do Mundo do ano que
vem. Seu futebol não é mais o mesmo há algum tempo.
Temos prazo para que ele
recupere o encanto que nos deixou boquiabertos. Que a convivência com Messi e
companhia seja o desafio inspirador que ele precisava e que os gramados
brasileiros não correspondiam. Tomara.