A péssima notícia de ontem ficou por conta da morte do tecladista e fundador do Deep Purple, Jon Lord. Uma embolia pulmonar nos privou dessa unanimidade na terra do rock. Ele já vinha lutando há algum tempo contra um câncer de pâncreas. Essa sequência debilitou sua saúde. Aos 71 anos, o corpo não aguentou e ele veio a óbito em uma clínica de Londres. Uma lástima!
Lord é um herói dos teclados. Para quem toca o instrumento dentro do universo do rock, Lord está posicionado como um Jimmy Page para a guitarra. Referência absoluta e inquestionável. Um virtuose que em 1968 montou o Deep Purple depois que o tresloucado Chris Curtis abandonou tudo e abraçou o ideário hippie de colocar o pé na estrada, deixando um baita tecladista sem banda. Junto de Ian Gillan (vocal), Ritchie Blackmore (guitarra), Ian Paice (bateria) e Roger Glover (baixo) esteve na segunda e mais lendária formação do Purple. Esses caras compõem ao lado dos do Led Zeppelin e dos do Black Sabbath a santíssima trindade do hard rock. Só a nata!
Se o Black Sabbath é pai da vertente mais suja e agressiva do metal, o Purple pode ser considerado o genitor da linha mais técnica do estilo. Pai nenhum pode ser condenado pelas bobagens que o filho faz… Por conta dessa influência direta em bandas que, na minha opinião, são chatíssimas, demorei a reconhecer o poder do Deep Purple.
Fui criado no punk rock. Naquele momento, não vivíamos essa positiva promiscuidade estilística que habita os ouvidos dos adolescentes de hoje. Você precisava ter lado. Era questão de honra, de reputação e de identidade com o grupo. Como me enveredei pelo punk/hardocore, era obrigado a negar o metal. Tipo um Goiás e Vila Nova. Uma bobagem. Por conta disso, neguei os autores de Smoke on the Water por tempos.
Eu era ainda mais radical. Tinha uma má vontade incrível com qualquer banda que tinha teclado na formação. Repito: bobagem pueril. O primeiro tecladista que me fez reconsiderar foi Ray Manzarek, do Doors. Quando entendi o quanto esse instrumento poderia ser rock na acepção clássica do termo, dei o braço a torcer e fui para a galera. Pirei no som do Deep Purple nesse momento. Entrei de cabeça logo no Machine Head de 1972 e no melhor disco ao vivo da história do rock, o Made in Japan, do mesmo ano. Depois, comprei os vinis de Stormbringer (1975) e Perfect Strangers (1984), todos ouvidos e reouvidos infinitas vezes.
A morte de Lord coloca fim ao sonho do retorno da lendária formação, aquela que mora no coração de todos fãs da fase áurea do Purple. A banda já esteve no Brasil inúmeras vezes. Tive a felicidade de assistir o show dos caras em 2003 no Goiânia Arena – uma noite que está na memória de todo roqueiro comedor de pequi do cerrado. O tecladista já não estava mais na banda. Ou seja, não podemos ver a fúria de Lord. E nem poderemos mais. Perda irreparável.
E como um monte de gente legal deu para morrer recentemente, começo a pensar que o além está mais divertido do que essa loucura que vivemos. O que me consola é que, cedo ou tarde, todos estaremos por lá também. Então, basta só aguardar para um dia toparmos com um show de Lord. Enquanto isso, vou ali colocar Highway Star na vitrola e pirar com o talento desse cara.
Valeu por tudo, Jon Lord!