Tenho uma amiga que está preocupadíssima com essa história de meteoro que vai passar perto da Terra. Já ligou para um parente que tem doutorado em Física Quântica e checou a opinião do cara. Lê desesperada tudo quanto é notícia desse corpo espacial. Fala disso todo momento. Demonstra pânico sincero no olhar. Não posso negar: está divertido observar a paranoia dela. Confesso que estou mais preocupado com o financiamento da casa que preciso pagar do que o meteoro que passará de raspão em nosso planetinha. Medíocre e pequeno de minha parte, eu sei, mas é assim que me sinto bem.
O meteoro que acabou com os dinossauros tinha entre 10 e 14 quilômetros de diâmetro. Era uma rebarba de um choque entre dois meteoros muito maiores (170 e 60 quilômetros de diâmetro cada). Uma lasca dessa batida pegou o rumo da Terra. E esse meteoro foi o carrasco dos dinossauros. O impacto desse pedregulho na Península de Yucatán no México provocou tsunamis e incêndios nos quatro cantos do mundo, literalmente. Deixou o planeta vários anos na escuridão. Os dinossauros reinavam por 165 milhões de anos nessas terras. Depois disso, viraram fósseis em nossos museus. Será que adiantaria algo a preocupação com a chegada dessa pedra dos céus para a perpetuação da espécie? Tenho minhas dúvidas.
Levo comigo uma meta de vida que recomendo: só esquento a cabeça com aquilo que está na minha alçada. Não perco meu valioso tempo pensando na solução do que extrapola (e muito) meu poder. É estresse desnecessário. Veja bem, eu disse desnecessário. E não desimportante. Muitas vezes é um problema digno de toda dedicação e que cabe amplo debate a respeito. Mas se não tenho forças de fazer algo para resolver, ou ao menos minimizar, as consequências do mal, na boa, deixo a bomba para quem é mais capaz que eu. Faço minha parte (muitas vezes ínfima) para tudo ficar mais perto do que acredito e bola para frente.
Mas tem gente que não consegue tamanho desprendimento (ou irresponsabilidade, vai saber). Aí, meu amigo, dá-lhe preocupação sobre a falta de água no mundo, fluxo imigratório para o Brasil, capacidade do País para organizar a Copa do Mundo e meteoros em direção ao Planeta Terra. Admiro a capacidade macro dessas pessoas. Não sou tão magnânimo. O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar – naturalmente, só para me sentir alguém melhor. Até penso global, mas meu agir sempre vai se concentrar no local. Mera questão de personalidade.
Não faço hierarquização. Não dá para dizer quem tem uma postura melhor dentro das duas opções de vida. São só percepções de mundo diferentes. A angústia me destroça se penso demais em algo que extrapola meio raio de ação. Aprendi isso há alguns anos. Pretendo carregar para a vida. Cada um sabe onde o calo incomoda. No meu, já achei onde colocar o band-aid. Quando isso acontece, o peso fica bem mais leve sobre os ombros. Pelo menos para mim.