Goiânia – Recentemente, li um artigo da atriz Betty Faria em que ela queixava-se do fato de ter sido alvo de duras críticas, por haver “ousado” ir à praia de biquíni. “Querem que eu ande de burca? Querem que eu me envergonhe?”, questionava ela, indignada com os comentários ácidos dos inconformados com o fato de uma “velha de 72 anos” exibir o corpo.
Algum tempo depois, vi na internet uma matéria sobre a modelo Luiza Brunet, na qual ela era elogiada pela boa forma aos 51 anos e dava dicas de beleza. Para provar que estava mesmo com tudo em cima, ela tirou uma foto sem maquiagem para o site. Os comentários à tal foto – coisas como “passada” e “maracujá podre” – também não foram nada elogiosos.
Fui pesquisar e, fuçando daqui e dali, constatei que a maior parte das críticas era vinda das mulheres. Havia, claro, homens que implicavam com o biquíni da Betty Faria e as rugas da Luiza Brunet. No entanto, nas opiniões masculinas não havia um décimo da ferocidade e das condenações feitas pela ala feminina. Essa última foi implacável.
Fiquei pensando que as mulheres que não suportam ver uma atriz com mais de 70 anos exibindo o corpo ou uma modelo cinquentona sem maquiagem devem ser as mesmas que se queixam de serem tratadas como objetos sexuais. Devem ser aquelas que assistem às propagandas de cerveja com as gostosonas da vez e condenam a “exploração da imagem feminina”, que querem ter sua essência mais valorizada que a aparência.
Vivemos uma grande incoerência entre discurso e atitude. O que mais ouço por aí são mulheres dizendo que estão cansadas da “ditadura da beleza”, que não suportam mais a cobrança pelo corpo perfeito, pelo rosto sem marcas. Entretanto, quando uma de nós decide quebrar o padrão vigente e se mostrar sem artifícios, é fortemente repudiada, como se cometesse um crime.
Sei que o componente cultural conta muito. Somos bombardeadas todos os dias por outdoors, programas de TV, anúncios, novelas e reportagens com mulheres lindíssimas, jovens, que parecem ter saído de um desfile de moda. Pregam que sejamos assim, sempre belas e desejáveis, intactas à ação do tempo e às limitações impostas pela rotina corrida.
Assistimos a tudo em meio a um misto de ansiedade e revolta, porque no fundo sabemos que essa é uma exigência impossível de ser cumprida. A menos que viva da própria imagem, mulher alguma consegue ter dois filhos, trabalhar oito horas por dia, fazer supermercado e chegar em casa sarada, de barriga chapada, maquiadíssima e com os cabelos esvoaçantes.
Ao vermos “gente como a gente”, ou seja, mulheres que também têm flacidez, celulites, rugas e cabelos brancos, que sofrem a ação do tempo e envelhecem, deveríamos nos sentir aliviadas, rendidas, de certa forma. Mas a cultura da beleza e da juventude a qualquer preço está tão internalizada, que nossa reação é de repúdio violento.
Talvez fosse a hora de trocarmos a raiva e a condenação pela reflexão. Não seremos sempre jovens, não conseguiremos ser sempre belas. A bunda vai cair, os peitos vão murchar, os cabelos vão ralear e os olhos ficarão com vincos. Ainda que nos tornemos bonecas infláveis de botox, silicione e megahair, o tempo passará. Nossa “juventude” soará fake.
O que fazer diante disso? Cortar os pulsos? Firmar um pacto com o diabo? Creio que o mais sensato seria refletir sobre o fato de que o envelhecimento não é algo que possamos escolher. Ele sempre vem, o tempo é inexorável e não leva nossa vontade em conta. Não podemos agir sobre ele. Mas podemos, sim, decidir como vamos encarar sua passagem.
Quem envelhece fica velho. Portanto, a mulher que envelhece fica velha. Velha, sim, senhora! Leia de novo a palavra em voz alta e repita até que o pânico e o desconforto passem: “Ve-lha”, “ve-lha”, “velha”! Não é um xingamento, não é o fim dos seus planos, não é a decadência total nem a impossibilidade de ser feliz. É a vida, com seus ciclos que não param.
Em vez de criticar quem fez as pazes com o tempo, quem aceita a sua passagem com serenidade e alegria, reflita. Você tem vergonha da sua própria história? Tem prazo de validade para ser feliz? Sua satisfação é diretamente proporcional à quantidade de pele lisa e músculos do seu corpo? Sua vida daqui a 30 anos será um inferno?
Se a resposta para as questões anteriores for “sim”, talvez seja o momento de rever seus conceitos. A vida não começa aos 40, ela começa todos os dias. A cada segundo que se olhar no espelho, você encontrará uma imagem diferente, provavelmente mais envelhecida. Então, quem sabe não seja a hora de cuidar da cabeça? Essa a gente consegue controlar. E, pode ter certeza, ela não está no topo, acima da barriga, do bumbum e dos peitos por acaso.