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Vida de barraquete

13.08.2012 - 15:39:59
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Se conselho fosse bom a gente não dava, vendia. Ditado mais que verdadeiro. No sábado, em Pirenópolis, bem que uma amiga tentou alertar a outra para a bobagem que ela estava fazendo, mas não adiantou. Sentada no mesmo barzinho que as duas, ouvi o seguinte diálogo:

– Pare de besteira, é claro que ela não está dando em cima do seu namorado! Nós três somos amigas há mais de dez anos, ela não faria isso nunca!
 
– Ela está paquerando ele sim, não sou idiota, já percebi! E isso não vai ficar assim, eu te garanto.
 
Quando a suposta “amiga da onça” chegou à mesa das duas, a moça que estava furiosa começou a armar o maior barraco:
 
– Escuta aqui, minha filha, quando é que você vai parar de dar em cima do meu homem, hein?
 
– Você está louca? Do que você está falando?
 
– Estou falando da sua safadeza. Você aproveita cada minuto para seduzir meu namorado na minha frente. Sua piriguete safada!

Bastou dizer isso, para a outra xingá-la de coisas terríveis e as duas se atracarem. Depois de puxarem os cabelos uma da outra e se estapearem, foram separadas pela turma do deixa-disso. O namorado em questão fez cara de paisagem e sumiu, morto de vergonha, fingindo que a baixaria nada tinha a ver com ele.
 
“Vida de barraquete não é fácil”, disse a vendedora de artesanato que acompanhou a briga. E não é mesmo. Viver a perigo, com os nervos à flor da pele, como se a qualquer momento fosse preciso matar alguém para segurar um homem, deve ser triste. Aliás, deve ser deprimente. Pena que não faltem mulheres barraquetes.
 
Aparentemente, a barraquete parece ser forte, destemida, decidida. À primeira vista, ela intimida. Passada a impressão inicial, porém, o que se vê é uma figura totalmente insegura, que não confia no próprio taco e, por isso, é tomada por uma mania persecutória quase doentia. O mundo está contra ela e um descuido pode ser fatal.
 
Autoestima também passou longe da barraquete. Ela não se ama a despeito de tudo e todos. Para se sentir bem consigo mesma, para se saber valorosa, precisa de um homem do lado. Se esse homem for embora, seu amor próprio vai junto. Ele é um “apêndice” vital, como o ar que ela respira. 
 
Tanta insegurança e falta de autoestima fazem um estrago imenso na vida da barraquete e de quem a cerca. Para manter o homem ao seu lado, ela não mede palavras nem atos, tampouco pensa nas consequências do que diz ou faz. Passa como um trator de esteira por cima de quem estiver à sua frente.
 
A questão é que, no final das contas, é sempre ela a maior prejudicada. Um homem de bom senso e que não é dado à infidelidade se assusta com tanto descontrole e vai embora, sem olhar para trás. O infiel compulsivo está se lixando para os gritos e ataques e continua fazendo o que quer, porque pensa nele mesmo e não nela. 
 
Na verdade, a barraquete é uma iludida. Pensa que se berrar, der piti e sair batendo nos outros vai impor respeito. Acontece que respeito não se exige nem cobra, conquista-se. Quem perde a linha por pouco dá ao outro o direito de fazer a mesma coisa. Quem só distribui gritos e tapas não vai receber nada diferente disso.
 
Também é iludida porque acredita que está defendendo o “seu” homem. Seu como, cara pálida? Cadê a escritura lavrada em cartório, garantindo a posse do outro? Gente não é um bem do qual nos apropriamos. O outro entra, fica e sai da nossa vida quando quiser e aprender a lidar com isso é condição básica para se relacionar. 
 
Armar barraco por qualquer coisa que seja já me parece estranho. Se for por causa de um homem, então, é pior ainda. É o retrato do desespero puro, parece que a mulher está gritando aos quatro ventos: “Pelo amor de Deus, não me deixe! Se você não me quiser, ninguém mais vai me querer!”.
 
O fim do mundo não é um homem comprometido paquerar outra pessoa e não respeitar aquela que está com ele. Fim do mundo, para mim, é a mulher tolerar isso e ainda brigar por causa desse sujeito, querer esse cara sob qualquer circunstância, independente da sua falta de comprometimento e respeito com ela. 
 
Amiga barraquete, bora fazer terapia, tomar uns florais, praticar meditação ou disputar maratona para liberar endorfina e colocar as ideias no lugar. Um homem não ficará contigo só porque você o deseja por toda lei. Tudo o que a gente quer a qualquer custo, colega, sai caro demais. Não vale a pena pagar o preço. 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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