Raisa Ramos
Vodka, suco de uva verde e água de coco. Esses são os ingredientes do Shake de Amor, um drink novo, elaborado por uma casa noturna da cidade em homenagem à música mais cantada de Goiânia nos últimos meses – aquela
"Vou me vingar de você! Vou me vingar de você! Vou me vingar de você!". A Capital, que já teve fama de sertaneja e roqueira, agora sente o gosto amargo do eletrobrega. Ou seria New Melody? O som feito pela goiana com cara de internacional Banda Uó mescla pop, brega e eletro, mas ainda não tem definição certa. Agradando até mesmo as pessoas mais conservadoras musicalmente, os vídeos feitos pelo grupo viraram hits do Youtube, com mais de 140 mil visualizações. Durante os shows, amantes do rock clássico e da música erudita já foram flagrados dançando até o chão. Todos se rendendo à batida pesada e contagiante do trio, que tem produção feita por Rodrigo Gorky e Pedro D'Eyrot, profissionais reconhecidos no mundo inteiro e responsáveis pelo sucesso do Bonde do Rolê.
Com talento e muita sorte, a Banda Uó teve algumas bênçãos. Seus vídeos, postados inicialmente na brincadeira, foram comentados por grandes da música mundial, como DJ Diplo (que fez a produção do último lançamento da Beyoncé, Run the World), o blogueiro estadunidense Perez Hilton e a cantora Cibelle. A lista de elogios é longa e conquistou a crítica nacional. Agora é a vez da Redação conversar com a banda, que está longe de ser comum. Nesta entrevista, Davi Sabbag, Mateus Carrilho e Mel Gonçalvez contaram tudo de tudo: parcerias, disco que está por vir, transexualidade, referências e, claro, música – brega ou não! Então pegue seu drink e aproveite. Mas cuidado com os comentários! Eles costumam ser vingativos…
A Redação – Vamos começar do começo! Como vocês se conheram?
Mel – A gente se conheceu na balada, há uns dois anos, mais ou menos. Eu já conhecia o Mateus e, por último, eu conheci o Davi. Pra mim parece muito tempo, porque a gente se vê quase todo dia.
Mateus – É. Eu fazia umas festas e para cada uma eu fazia um vídeo para divulgar. É uma coisa que inventei. Queria fazer uma coisa diferente. E quem participava dos vídeos era sempre meus amigos. A Mel participou primeiro, aí depois o Davi também participou. Nós ficamos muito amigos e começamos a trabalhar juntos nisso. Como o Davi já trabalhava com música e produção musical, ele começou a caminhar junto comigo nessa história.
Davi – Aí eu comecei a fazer as trilhas dos vídeos, as músicas…
Mateus – E o grupo foi se formando…
Foi bem gradativo e natural, então.
Mateus e Davi – Foi, foi bem natural.
Mateus, você trabalhava antes com vídeo? Estuda audiovisual ou é só Hobby mesmo?
Mateus – Eu sou publicitário. Já formei já. Mas eu sempre me interessei por essa área. Desde novinho eu mexia com filmagem e essas coisas.
Você chegou a trabalhar com publicidade?
Mateus – Trabalhei antes, na faculdade, como estagiário. Trabalhei também como designer gráfico, em agências. Fiz vários serviços para uma galera aí, mas hoje em dia eu trabalho só para mim mesmo.
E como surgiu a ideia de montar a banda? Quando morreu a brincadeira e vocês começaram a levar a sério o grupo?
Davi – A gente sempre brincava com as músicas, fazendo letras em português para as músicas em inglês. Tem um DJ, o DJ Cremoso, que começou a misturar estilo indie e pop com o brega. E as pessoas gostavam bastante disso. E a gente também. Ele só fazia o remix das músicas em tecnobrega. A gente quis fazer uma coisa diferente e começou a escrever letras em português.
Mateus – Antes disso, pegamos toda essa sacada e fizemos um vídeo para uma festa que tinha temática brega. O nome da festa era Uó. E tivemos a ideia de montar uma banda só para ela. Só pra fazer uma propagandinha mesmo. A banda ia ser uma das atrações do dia.
Você já estava nessa época, Mel?
Mel – Não, ainda não.
Como foi a saída da Flora e a sua entrada?
Mel – Eu entrei no lugar dela porque surgiu um convite para mim. Os meninos me chamaram e eu aceitei. Mas os motivos que a Flora teve pra sair, eu não sei.
Mateus – Ela saiu porque ela teve que viajar e as agendas não batiam.
Davi – É. A gente chegou a fazer dois shows sem ela, inclusive. Aí vimos que não dava. Precisávamos de alguém e já tínhamos pensado na Mel antes.
Mateus – Ela até tinha sido convidada antes da Flora, mas a Mel estava fazendo outro trabalho e não pode. Mas quando a coisa ficou séria, trouxemos ela de volta!
Davi – A Flora não fez nenhum show com a gente. Ela só está no vídeo.
Mateus – Os meninos do Bonde [do Rolê] também amaram a Mel.
Como foi essa mistura do pop com o brega? Por que o brega?
Davi – Porque a gente gosta! O funk já foi… Pensamos no brega, no caso o Melody, que é o nome do ritmo. E a gente ouvia muito. O Mateus discotecava Calypso na balada. A gente adora!
Mateus – Gostamos mesmo! É real! Tenho esse amor pela Uó por causa disso!
Davi – Tem gente que não gosta de tecnobrega, mas gosta da Banda Uó.
Mateus – Na verdade, a gente não faz tecnobrega. Tecnobrega é do Pará. Nós pegamos o ritmo deles e modificamos. Fizemos outra coisa.
Davi – Não reinventamos nada. Só acrescentamos. Adicionamos a pegada pop.
E como vocês definem seu gênero?
Davi – A gente fala que é eletrobrega.
Mateus – Toda hora a gente inventa uma palavra, na verdade! Às vezes falamos que é New Melody…
Davi – Às vezes drum'n brega… [Risos].
Mel – Essa coisa de brega é tão relativa! O que é brega pra você pode não ser pra mim! Eu não acho Calypso brega!
Mateus – A gente, na verdade, quer brincar com os ritmos!
Davi – Mas nessa linha.
E a parceria com o Bonde do Rolê? Como foi?
Mel – Ah, foi muito engraçado! Foi quando a gente abriu o show deles, em dezembro. Aí eles viram e gostaram muito.
Davi – Mas eles já tinham visto o nosso vídeo antes [de Não Quero Saber].
Mel – É, mas não tinham falado com a gente. Isso só foi acontecer no dia do show. Como eles gostaram, pediram para produzir com a gente! Ficamos tão felizes que pulamos na piscina!
Davi – Isso é tão engraçado! Porque hoje é comum a gente se encontrar. Ficamos amigos.
E a parceria ainda existe ou foi momentânea?
Davi – Existe. Eles [Rodrigo Gorky e Pedro D'Eyrot] que são nosso produtores.
Mateus – Nos falamos diariamente.
Vocês saíram mesmo no site do Perez Hilton?
Davi – Tem gente que fala que viu e tem gente que fala que é mentira! O que a gente sabe é que ele comentou o vídeo [de Não Quero Saber] no Youtube pelo perfil oficial dele! Tá lá de prova!
O que ele comentou?
Davi – It's so rad!
E essa história do DJ Diplo? Como aconteceu?
Mateus – Eu acompanhava muito o Diplo. Sou fã dele. Aí eu reeditei o vídeo e mandei pra ele por Twitter. Mandei e enchi o saco dele umas quatro vezes! [Risos]. No dia seguinte ele comentou!
Davi – É! Eu acordei, entrei no Twitter e perguntei "Mateus, você viu isso aqui?". O Diplo tinha tuitado o vídeo.
Mateus – Depois que ele tuitou foi que a Banda Uó bombou!
Davi – Até então, o clipe só tinha 300 visualizações. [Hoje tem mais de 40 mil].
A Cibelle também comentou?
Davi – Comentou. Colocou o vídeo no Twitter, falando que era legal.
Vocês estudam? Mateus disse que já formou…
Mel – Prestei vestibular no ano passado, mas não passei! Fiquei revoltada!
Mas vai tentar de novo?
Mel – Vou! Quero fazer Design de Moda.
Davi – Eu faço composição musical. Mas a faculdade ficou um pouco abandonada por causa da Uó e da Folk Heart [outra banda do Davi e do Mateus]. Achei que as pessoas da faculdade iam reagir mal ao meu trabalho, porque eu faço composição erutida. Mas eu as vejo indo aos meus shows! Todo mundo gosta!
Você toca piano desde os 8 anos. A música erudita te influencia de alguma forma?
Davi – Claro! Os arranjos, por mais simples que sejam, precisam de conhecimento. Às vezes eu ensino coisas técnicas para o Gorky, que está há muito mais tempo na estrada do que eu. Estudo música clássica, mas sempre fui ligado no pop!
Shake de Amor é a história da Luciana Gimenez mesmo?
[Risos]
Davi – É a história da Lu! Mas foi coincidência!
Mateus – Tem muita coincidência! A letra fala de shake [Luciana Gimenez tem uma linha de shakes para emagrecer], do Mick Jagger… Mas vimos só depois que as histórias encaixavam!
Vocês deviam mandar pra ela!
Mateus – Mandamos! Mas ela não respondeu… Acho que não gostou!
O clipe Shut up and Drive, da Rihanna, é muito parecido com o início do Shake de Amor. A mulher arrumando um carro, o sapato de salto… Foi uma referência?
Mateus – Só se for do meu subconsciente! Nunca percebemos essa semelhança.
O EP acabou de ser lançado [Me emoldurei de presente pra te dar]. Com está a repercussão?
Davi – Tá boa! Parece que as pessoas, com EP, levam a gente mais a sério.
Mateus – Elas param de reclamar também! Antes reclamavam que só tinha uma música. Agora tem cinco! [Risos]. Mas queremos lançar o CD ainda este ano.
Como vai ser?
Davi – Tudo autoral.
Vão entrar músicas do EP?
Mateus – Não! As pessoas estão achando que vai, mas não! Vai ser tudo novo!
Vocês já têm músicas novas prontas?
Davi – Algumas. Mas o processo de produção é complicado. A gente grava várias demos e depois selecionamos o que vai entrar ou não.
E a campanha Top 10 MTV?
Mateus – Foi depois que participamos do programa "Na Brasa…"
Davi – Uma fã foi votar no Top 10 e viu que a música já estava no catálogo. Aí ela colocou no Twitter e começamos a pedir votos. Mas é complicado… A banda que está em nono lugar no ranking, por exemplo, o Strike, tem 133 mil followers. Nós temos 3 mil! Estamos crescendo ainda. Mas é bom ver que as pessoas estão dispostas a votar pela gente!
Mateus – Vamos montar a Gang Uó! Igual tem Família Restart, teremos a Gang Uó! Lá no Pará, eles falam Gang!
Vocês tocaram em São Paulo no mês passado. Como foi?
Davi – Foi bom! Deu gente. Tocamos no Secreto e no Glória.
Tem outros shows marcados fora de Goiás? Sei que dia 22 vocês vão tocar em Recife.
Davi – Temos! Vamos para Recife, Natal e Fortaleza. Mais pra frente iremos para Salvador, Brasília…
Mateus – E Belém do Pará!
E a Folk Heart? É uma banda completamente diferente da Uó. Não dá uma confusão na cabeça?
Mateus – Não. Acho que se fosse parecido, daria.
Davi – Sempre tem as pessoas que gostam de música calma, mas que descabelam na balada!
Mateus – A vida é uma mistura! Se eu pudesse, tinha uma banda de funk, uma de axé…
Tem clipe novo saindo?
Mateus – Ah, clipe novo! Até agosto sai!
Davi – A nossa dificuldade é conseguir tudo! Dinheiro…
Mateus – Tudo que vai crescendo, cresce também em estrutura.
Qual música vai ser?
Mateus – A gente tá brigando ainda! Mas vai ser O Gosto Amargo do Perfume.
E qual a história?
Mateus – Não posso falar! Eu mudo de ideia muito rápido! Posso falar e depois querer mudar!
Mel, você tem os traços muito parecidos com os da Lea T. [modelo famosa transexual]. Ela é uma referência para você?
Mel – Nossa! Gosto muito dela! Mas ela não é uma referência…
Como é a questão da sua sexualidade? Você se sente à vontade pra falar?
Mel – Me sinto à vontade, mas não vejo necessidade de estampar isso na cara.
Mateus – A banda também não usa isso para ganhar alguma coisa.
Mel – Eu faço questão de responder todas as perguntas, mas eu mesma não vou me colocar no meio do público e começar a falar da minha sexualidade.
Você já fez a cirurgia definitiva?
Mel – Ainda não, estou em fase de tratamento.
Vocês já foram assediados na rua?
Mel – Eu fui hoje! No supermercado! Passei e escutei um homem comentando: "aquela ali é a menina da banda"!
Mateus – Um dia eu estava andando na rua e alguém gritou do carro: "vou me vingar de você"!
Davi – Teve um menino que pediu para tirar foto comigo… Ele falou que era um "Uó lover". [Risos].
Quais são seus músicos preferidos?
Davi – Eu escuto muita coisa!
Mel – Eu escuto muita MPB. Amo Chico Buarque, Bethânia, Gal… Mas ultimamente eu estou escutando muito Annie Lennox.
Davi – Eu sempre escuto Feist, Laura Marling, Rihanna… Achei o CD novo da Gaga incrível!
Mateus – Eu sou muito bagunçado! Meu Itunes é uma bagunça! Mas eu não gosto de tudo!
Do que vocês não gostam?
Mel – Justin Bieber!
Mateus – Capital Inicial.
Davi – Tudo o que toca na [Rádio] Interativa e não é pop de verdade. Tirando Britney, Rihanna, essas coisas, o resto é ruim!
Assista abaixo o videoclipe do sucesso "Shake de Amor":