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Viver é muito perigoso

01.07.2025 - 09:50:57
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Em 1998, tentei subir o Aconcágua que, com 6.961 metros, nos Andes argentinos, é a montanha mais alta das Américas. Pela sua Via Normal, a ascensão do Aconcágua é uma extenuante caminhada. Não envolve trechos de escalada em gelo ou rocha e, portanto, não demanda grande conhecimento técnico. Ainda assim, é uma imensa montanha, com os riscos do clima instável e imprevisível e do Mal de Montanha — os efeitos deletérios e incontroláveis da rarefação do oxigênio que podem levar até mesmo à morte. Por isso, paradoxalmente, por atrair mais escaladores incautos, a Via Normal é a que mais mata no Aconcágua.
 
Demonstrando o quanto é complexa essa relação entre conhecimento e risco, naquele mesmo verão perdi três colegas na Face Sul da montanha, uma das paredes mais desafiadoras e perigosas dos Andes.
 
Bem preparados e com larga experiência, decidiram, a meio caminho da escalada, tomar a chamada Variante Messner, uma rota mais arriscada, só recomendada após alguns dias de tempo estável, para que não haja acúmulo de neve e risco de avalanches. Mesmo com um clima instável nos dias anteriores, decidiram seguir. O que os matou, entretanto, não foi uma grande avalanche, mas sim um deslizamento de pequenas proporções, provavelmente provocado por eles mesmos ao escavarem uma plataforma para montar sua barraca.
 
Ainda em janeiro de 1998, ao voltar da Argentina, recebi a notícia da morte de outro amigo. Morava em um duplex, tropeçou na escada, caiu de cabeça no vão.
 
Obviamente, toda morte de pessoa querida nos angustia, mas aquelas em que o acaso se mostra de forma mais evidente são as mais impactantes. Tornam explícito demais o papel do caos em nossas vidas e trazem a sensação insuportável de que tudo se sustenta por um fio. A qualquer momento, o mesmo pode acontecer a alguém muito querido — ou a nós mesmos. Toda escolha ou ação pode sempre ser um passo em falso que contribua para a cadeia de eventos que, amanhã, terminará com a minha morte — um momento de hesitação, uma decisão diferente na bifurcação, um segundo a mais ou a menos, e tudo poderia ser diferente.
 
A morte de Juliana Marins, no Monte Rinjani, na Indonésia, nos comove por tocar nessa fragilidade. Todavia, atirada no liquidificador das redes sociais, da comunicação instantânea e do identitarismo político, além da justa comoção, invoca também o mais sombrio do ser humano, tornando quase impossível uma leitura comedida, razoável e respeitosa da tragédia.
 
Para os que ainda frequentam o X, o algoritmo valoriza e exibe os comentários mais grotescos e irreproduzíveis. Para o identitarismo nas redes, como bem observou o professor Wilson Gomes, tudo precisa ser parasitado para fins ideológicos e de sinalização de virtude — Juliana, portanto, só pode ter morrido por ser mulher ou negra. De modo mais geral, o que importa é acusar e encontrar culpados: foi a Indonésia, foi o guia, foi a desumanidade dos que não a ajudaram, foi a negligência do resgate que não chegava.
 
Independentemente de sua forma, todas essas manifestações são tentativas de fugir da verdade que nos apavora: o caos tem um papel mais importante em nossas vidas do que estamos preparados para suportar. Dar sentido à nossa existência é tarefa dura, porque demanda aceitar e buscar formas de conviver com essa verdade — a única absoluta.
 
Fazer escolhas é assumir riscos — risco de que o imprevisto se imponha, risco de que as decisões simplesmente deem errado. Nesse sentido, a relação entre conhecimento e risco oferecida pelo Aconcágua, e a diferença entre o impacto das mortes de Juliana, dos amigos que escalavam uma parede perigosa e daquele que caiu da escada, talvez nos ofereçam lições.
 
Para os que tombaram no Aconcágua, é fácil varrer para baixo do tapete o protagonismo do caos, atribuindo culpa aos próprios escaladores por sua imprudência — “assumiram conscientemente o risco”, “sabiam do perigo”, “eram malucos”.
 
No caso do meu outro amigo, morto em casa, angústia máxima: fica difícil negar o papel do acaso — a distração, um tropeção, literalmente o passo em falso. Ainda assim, em desespero, podemos ir atrás de culpados: mas quem deixou aquele tapete ali? Por que esse corrimão tão baixo?
 
Não muito diferente é o caso de Juliana, em que cravam julgamento imediato pessoas que nunca foram à Indonésia, nunca subiram uma montanha tropical, não conhecem o que é um solo vulcânico, não entendem o clima a 3 mil metros de altura em uma ilha a oito graus de latitude, desconhecem as dificuldades de um resgate em altura e não sabem nada do que se passou. Importa apenas atribuir causalidade direta e culpa.
 
Esquecemo-nos, nessa hora, de que, ao apontar culpados, transformamos Juliana somente em vítima. Ela pode, de fato, ser vítima — em termos éticos e jurídicos — se assumiu inadvertidamente um risco ao qual não se exporia caso dispusesse de todas as informações possíveis. Ainda assim, quando a reduzimos, na hora da morte, somente a essa condição, subtraímos toda a sua agência e aquilo que de mais humano e bonito ela parece ter tido em sua vida, infelizmente curta: o gosto pelo exercício da liberdade. Juliana gostava do mundo e se dispôs a assumir riscos para conhecê-lo e saboreá-lo. Não vitimizá-la é respeitá-la.
 
“Viver é muito perigoso”, ensina Riobaldo.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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