Confesso que toda vez que a sexta ou segunda-feira chega ao Facebook eu sempre fico com um incomodozinho aqui dentro. “Ufa, é sexta-feira!”. “Ah, não, já é segunda!”. Gente, que tristeza. Que vida é essa que se leva em que só fim de semana vale à pena? Que se trabalha o ano todo pensando nas férias? A impressão é de que se sofre a semana toda esperando por dois dias e uma noite. Aliás, uma noite (de sexta), um dia todo (sábado) e domingo até a hora do almoço, porque lá vêm as reclamações. As dores do parto de uma segunda.
Se fizéssemos um cálculo (se é possível calcular felicidade), seria razoável dizer que menos de 30% da vida de alguém seria de satisfação, de acordo com meu índice de reclamação e contentamento do Facebook. O resto, uma tortura que segue de segunda a sexta (tirando as férias, claro) nas horas de trabalho. Não que trabalhar seja uma das sete maravilhas. Na verdade, estou antes com os gregos do que com Max Weber que diz que o trabalho dignifica o homem. Na Grécia antiga trabalhar era um horror! Coisa para escravo, de tão baixa que era essa atividade de simplesmente manter as necessidades básicas da vida, cuidar do mero estar vivo.
Os esforços para garantir a comida à mesa e as demais necessidades atendidas eram para os escravos. Então os aristocratas tinham seu tempo livre para o ócio. Palavrinha, aliás, muito mal interpretada hoje em dia. Estavam livres das atividades básicas humanas para poderem se dedicar ao pensamento, às artes, aos negócios da polis (aqueles relacionados à política) e à filosofia. Aristóteles acreditava, inclusive, que o homem mais elevado era o filósofo, aquele que vive uma vida contemplativa, em seguida era aquele que se dedicava a política, aos negócios da polis, sendo o menor deles aqueles que viviam apenas voltados aos prazeres mudanos.
Não quero aqui sugerir uma greve geral e pararmos todos de trabalhar. Muito menos estou defendendo a escravidão. Critico, antes, a supervalorização do trabalho, como se fosse a atividade mais nobre humana, enquanto arte é coisa de quem “tem tempo”, de vagabundos, iludidos ou é hobby. Enquanto discutir e cuidar de problemas da polis (política) são delegados a outros, aquela classe chamada de políticos.
A gente trabalha, rala horrores, enquanto eles cuidam da vida da polis. Que nunca é entendida como a nossa vida. Afinal, já dá trabalho demais ralar oito horas por dia, pagar impostos e cuidar dos problemas da minha casa. Que nossas responsabilidades sejam delegadas a eles, sendo nossa cidadania aquela praticada de quatro em quatro anos, com muito desgosto. E se a gente descobre que não andaram na linha, uma decepção imensa “confiar um voto” a eles e não representarem de acordo. Digna decepção, mas os assuntos da política e da cidade deveriam, antes, ser problemas de todos. Ou podem morrer à espera de um herói que vai cuidar de nossas vidas ou desiludidos que não há políticos que prestem.
Mas já que nessa modernidade não temos saída, já que a vida é trabalhar oito horas por dia (no mínimo) para pagar as contas (no mínimo, novamente), que se tenha emoção. Que a motivação não seja o fim de semana, as férias e a novela ou barzinho do fim do dia. Aquela bolsa da Channel ou o carro do ano. Simplesmente não faz sentido. É como Baleiro diz, é passar agosto esperando setembro.
E é por isso que acho tão complicado gente que corre atrás de concurso público sem se importar com o cargo, a função, o que você vai passar metade do seu dia fazendo. Mas a estabilidade, as contas pagas no fim do mês e aquela viagem para praia no fim do ano. Claro que considero a dificuldade em certas áreas em serem reconhecidas e ser tão frustrante dar o suor para mal pagar as contas. Triste. Mas mais triste ainda as indiferentes ou sacrificantes horas de trabalho. Se dentro dali o que importa é a individualidade (trabalhar para pagar as contas e ter a barriga cheia), fora tanto mais. Fim de expediente e então podemos ter uns pequenos prazeres para ser feliz. Controlados, claro, porque você sabe, comer pizza com cerveja é um veneno! Coxinha com coca cola então. E para se viver muito, deve-se ter muito controle da saúde. O que vai se fazer com tantos anos de vida ainda não entendi.
E no fim das contas eu só quero te perguntar: sua vida vale a pena a ponto de não odiar a segunda e superestimar a sexta? O que te motiva a viver além das suas contas pagas e seus pequenos prazeres? Além das suas fotos no Facebook mostrando tanto que sua vida (em algumas pausas) é boa e de dar inveja? Quando você morrer, o que fica de você?