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14.07.2021 - 16:19:01
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O teletrabalho ganhou protagonismo com a pandemia, estabelecendo uma rotina flexível na administração pública, mas que requer disciplina.
 
O trabalho remoto reforçou a necessidade de uma forte ética no serviço. Agora, a confiança é ainda mais fundamental. O servidor não está mais sob o olhar físico da chefia, mas deve ser eticamente confiável. Se não existem mais paredes, a responsabilidade precisa ser ainda mais significativa e a transparência ainda mais efetiva.
 
É fato que o comportamento ético requer disposição, autocontrole e esforço. Ele guia o que se realiza quando ninguém está olhando, e isso pode ser um desafio. Porém, se adota como premissa que, se as transformações do trabalho serão mais bem enfrentadas quando se valorizam a autonomia, a disciplina, o profissionalismo e a capacidade de reinvenção, o resultado será a construção de uma imagem de credibilidade para o servidor público.
 
Há, aqui e agora, a oportunidade de se dar um salto qualitativo importante. Não perder essa oportunidade é, antes de tudo, uma responsabilidade do chefe de confiar e, do servidor, de atuar com responsabilidade.
 
O teletrabalho não deve ser visto apenas como uma transformação digital, tampouco como mera mudança de local de trabalho. É uma verdadeira mudança de paradigma.
 
A estruturação de uma cultura do trabalho remoto, ou mesmo de um modelo híbrido, exigirá ações intencionais diárias que reflitam nos hábitos das pessoas. Esse é um movimento que requer auto-responsabilidade e predisposição para realizar bem. O servidor tem agora a chance de contribuir para o contínuo aperfeiçoamento de uma cultura verdadeiramente ética.
 
É sabido que a ética, em qualquer das esferas em que se estabeleça, inclusive no exercício profissional, depende do patrimônio moral das partes envolvidas. Isto é, da quantidade de conceitos elevados que determinam a conduta individual.
 
Por exemplo, por parte da chefia, existe a consciência de que a posição hierárquica implica, especialmente, possibilitar que cada um pense por si mesmo e seja capaz de resolver os problemas que se apresentam? O que atende ao comando sabe o que representa a profissão em sua vida? Sabe e pensa que ela deve contribuir para o seu desenvolvimento como ser humano? É, para ele, uma forma de colaborar com a sociedade em que vive?
 
A confiança de um lado e a responsabilidade de outro não surgem, no ambiente presencial ou remoto, da mera hierarquia de posições, mas do empenho, do esforço e da constância que cada um desenvolve para compreender melhor a conduta ideal que cada posição exige.
 
A pandemia não está comprovando que um bom servidor presencial é também no ambiente remoto e que teletrabalho não significa trabalho menos produtivo, nem trabalho de menor qualidade, nem menos tempo de trabalho?
 
Seria possível a conquista de uma autogestão no teletrabalho, libertadora do olhar da chefia, sem necessidade de monitoramento invasivo da esfera privada de cada um?
 
As respostas passam necessariamente pela vertente da dimensão moral do indivíduo, como necessidade de realização pessoal e de exercício de sua responsabilidade como ente social. É o estatuto moral de cada um que está em jogo.
 
*Adriana da Costa Soares é superintendente de Gestão Integrada da Secretaria de Estado da Casa Civil
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por Adriana Da Costa Soares

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