Goiânia – O brasileiro gosta de se identificar como um povo amável, hospitaleiro e quente e de achar que o famoso jeitinho é a materialização de uma abençoada criatividade impregnada nos nossos genes. Ocorre que, em situações muito mais frequentes do que gostaríamos, a carapuça do bom mocismo se esborracha no chão e a face oculta teima em aparecer.
Nesses dias dois fatos envolvendo magistrados expuseram mais uma vez esse lado B da alma brasileira. Em um dos casos, o juiz João Carlos de Souza processou (e ganhou!) a agente de trânsito Luciana Tamburini, que teve a audácia de pará-lo em uma blitz e, disparate total, reagiu à carteirada dizendo que o dito cujo não era Deus.
O outro caso, mais recente, envolveu outro homem de toga: o juiz Marcelo Baldochi deu voz de prisão a funcionários da TAM que cometeram o absurdo de negar a parar uma aeronave em procedimento de decolagem para embarcar o magistrado retardatário.
Os dois episódios são exemplos do famoso “você sabe com quem está falando?”. Trata-se de um comportamento tão arraigado que, conforme o antropólogo Roberto da Matta, tem “caráter coletivo”. Ou seja, ao contrário do que possa parecer, não é bravata apenas das “elites brancas”, como diria o ex-presidente Lula da Silva.
Como o próprio Da Matta explica, ainda que em menor proporção, as classes sociais que não estão no topo da pirâmide também recorrem ao “você sabe com quem está falando?” com certa frequência, exigindo apenas alguns complementos tipo “eu sou o filho do delegado” ou “eu sou o assessor do deputado”.
Daí que nos espantamos e nos indignamos com o comportamento dos dois magistrados. Mas esquecemos que no dia a dia não deixamos passar batido a oportunidade de experimentar o gostinho de superioridade quando nos deparamos com alguém em situação supostamente inferior.
No fim temos o paradoxo de Tostines: não sabemos se as elites agem assim porque são reflexo do povão ou se o povão copia a elite quando tem a chance de se vingar.
O círculo vicioso nunca para de girar enquanto aguardamos sem muita esperança que o Conselho Nacional de Justiça dê uma bela enquadrada em seus pares abusados.