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Você se importa se Nazismo é de esquerda ou de direita?

15.04.2019 - 09:41:24
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Goiânia – Quem é meu amigo no Facebook (e talvez você deixe de ser depois deste texto), viu que, perante polêmicas sobre coloração direita-esquerda do Nazismo, resolvi postar fatos e histórias que comprovam o lado ao qual ele pertencia. E reações foram surgindo, e com elas tentei dialogar. O que consegui foi ver que contra fatos não há… achismos!

 
Um exemplo claro. Se você é de esquerda ou de direita, você está defendendo que o nazismo não pertence ao seu grupo. Por quê? Porque não tem como aceitarmos que o nosso grupo pode ter produzido algo tão nefasto, não é? Entre os argumentos houve um “veja o nome do partido (Partido Nacional-Socialista)” ao que respondi perguntando o que seria o S de PSL e a resposta? “Não vou discutir….”. Outro exemplo foi dizer “se nazismo é de esquerda, então os russos comunistas que derrotaram Hitler são de direita???”. Respondi lembrando que Chamberlain (primeiro ministro inglês, conservador e de direita) também venceu a Guerra e, em retorno, houve um “sim, mas” tentando justificar a sua visão e um silêncio seguinte.
 
Isso não ocorreu por serem más pessoas. A maioria dos meus amigos no Facebook são aliás excelentes pessoas! O que acontece é que nos sentimos ameaçados e precisamos nos defender. Ser de direita e ler que nazismo é de direita faz a pessoa se sentir atacada achando que está lendo que ela mesma, seus amigos e seu governo legítimo são vistos como nazistas. Mesmo a pessoa dizendo que leu nas entrelinhas… E a definição de “entrelinhas” é o que você lê e não é necessariamente a intenção do autor. Para a direita aceitar o nazismo como de extrema direita deveria ser como aceitar que um primo cometeu um crime não faz da família toda criminosa! E para as esquerdas jogar o nazismo na direita parece estar sendo validar a crença pessoal de uma presumida superioridade que tampouco possuem, já que produziram, em seus extremos também, as suas ditaduras.
 
Com tudo isso, senti o que Maturana dizia sobre a nossa responsabilidade: somos nada responsáveis pelo que o outro lê do que dizemos. São os sentimentos dos olhos que lêem que fazem o texto mais ou menos palatável. E se a leitura for sentida como ataque, qual a melhor resposta senão contra-atacar? E nos comentários atacaram-se pessoas que nada tinham a ver com as postagens, alunos meus que resolveram brincar, fés religiosas, e até o meu gosto por cinema!
 
Tudo porque as crenças mais profundas estão amarradas nas emoções mais poderosas; e só se essa emoção for retirada é que conseguiremos alterar a crença. São emoções como medo (de destruição, de mudança…), amor (a alguém ou uma causa), raiva (àquele que nos causou mal) ou tristeza (pela situação de alguma figura significativa) que sequestram nossa mente.
 
E como qualquer perda, perder uma crença causaria dor (psicológica) e por isso nos munimos de mecanismos de defesa que permitam a sua manutenção. Psicólogos como Kahneman e Tversky falam dessa aversão em perder o que possuímos. Festinger fala de dissonância cognitiva: quando uma crença e/ou um comportamento se conflitam e um deles tem que vencer (geralmente o mais arraigado). Se a crença que Nazismo é X, Y ou Z for arraigado a um ponto identitário, com fortes emoções, a nova informação que comprova o contrário é destruída. Assim, confrontada por argumentos sobre neonazistas serem de extrema direita, a pessoa dirá que foram enganados “pela ideia pregada pelos comunistas” e mesmo com falas de Hitler comprovando o contrário, justificará que era para agradar pois, no fundo, ele era de esquerda. A psicologia chama a isso “viés de confirmação”: aceitar apenas minha crença original e ignorar ou transformar todos os argumentos que justifiquem os erros.
 
Paul Watzlawick dizia mesmo que quando não sabemos comunicar podemos desenvolver ódios a nós mesmos e aos outros, e até doenças neuróticas, psicóticas ou psicossomáticas. Gregory Bateson chegou a comprovar que incoerência comunicacional leva a esquizofrenia. A verdade é que a nossa sociedade está esquizofrênica: defende coisas contraditórias e sofre ilusões persecutórias, delírios de superioridade e até algumas alucinações. Será que sequer importa, hoje, se Nazismo é de esquerda ou direita? Ou importam as emoções perante as situações, e nossas ações, no mundo e com os demais? Este debate me mostra que ainda não estamos capazes de verdadeiro diálogo entre os grupos que se enxergam como rivais. E, enquanto não houver diálogo, não há progresso. Precisamos de empatia, senão jamais teremos mudança real.
 
As verdades que contamos na vida são narrativas que funcionam para explicar fatos objetivos. Fatos que podem se tornar mitos e depois histórias contadas que justificam nossas ações atuais. Podemos justificar nossas crenças e salvar nossas vidas e identidades com essas histórias. Elas podem ser verdadeiras e chamadas de narrativas, ou falsas e serem mentiras. O único problema é que, como nos recorda a israelense Ayelet Gundar-Goshen: “Às vezes as histórias podem ser muito perigosas e tornamo-nos vítima dessas mesmas histórias”.
 
Sam Cyrous é psicólogo (09/8178), psicoterapeuta de casais e família, storyteller e curador do TEDxGoiânia
 
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por Sam Cyrous
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