“Isso é uma palhaçada. Não é torcedor. Nosso time está brigando pela Libertadores, podemos pensar nisso já que a parte de baixo da tabela ficou para trás. Mas com essa torcida não vamos chegar. Hoje era jogo para 30 mil pessoas. As poucas que vieram ainda fizeram isso”.
Impossível não concordar com cada palavra dita pelo atacante esmeraldino Walter. Após a vitória do Goiás ontem sobre o Atlético Paranaense, o camisa 18 fez esse desabafo para os microfones da imprensa esportiva. Acertou na mosca.
Não foi sua única manifestação de descontentamento. Após marcar um golaço (outro) que acabou com qualquer sonho rubro-negro de reação na partida, Walter abaixou a cabeça e voltou ao centro do campo. Sem comemorar. Sem esboçar euforia alguma. Um protesto contra a violência que rolava solta nas arquibancadas.
A porrada entre os torcedores do Goiás foi tamanha que a partida precisou ser interrompida por duas vezes para que a polícia tentasse controlar a situação. A equipe goiana deve ser punida com a perda de mandos de campo na reta final do campeonato. O prejuízo ao Goiás é provável. Alguns imbecis colocam uma campanha belíssima em risco por conta da violência. É ridículo.
A real é que o estádio de futebol é um ambiente cada vez menos sedutor para o torcedor. O valor cobrado pelo ingresso é desproporcional ao conforto oferecido. É canseira chegar, é canseira ir para casa, é canseira ir aos porcos banheiros, é canseira atrás de canseira.
As boas medidas de controle contra álcool e direção também contribuem para o esvaziamento do estádio. Quem não tem um amigo motorista da rodada não vai ao Serra Dourada. Afinal, futebol sem uma cerveja é dose!
Além disso, precisamos entender que o mundo mudou. A oferta de atividades de entretenimento aumentou bastante. Ou seja, na hora da diversão, o futebol tem que concorrer com mais tipos de lazer do que há 20 ou 30 anos. O orçamento do cara não cresceu tanto quanto esse cardápio de atividades. E o dia continua com 24 horas. Logo, o futebol tem que ser mais encantador para vencer essa disputa.
Como cereja do bolo entre os motivos que encorajam o torcedor a ficar em casa assistindo o jogo no PFC ou no barzinho do lado de sua casa, tem a violência. Como convencer um pai a levar o filho ao estádio com essas rotineiras cenas de barbárie acompanhando o noticiário esportivo em todas rodadas? É muito difícil arrumar argumento convincente.
Ano após anos observamos um menor público nos estádios. A Europa conseguiu reverter essa tendência de queda e as principais ligas têm estádios cheios. A Alemanha conta com o considerado paradigma mundial quando o assunto é qualidade de espetáculo, a Bundesliga – sem os frequentes casos de violência que vemos por aqui e com o torcedor tranquilo com seu belo copo de chope nas mãos.
O movimento Bom Senso FC é um início de mudança. Foi bonito ver a adesão dos atletas à articulação que quer mudanças no calendário do futebol brasileiro na última rodada, com o abraço entre jogadores em círculo antes da partida. Agora precisamos partir para a humanização das arquibancadas. Falta aos cartolas esse discernimento que Walter mostrou. Lugar de bandido não é na arquibancada. Tem dirigente por aí que pensa o contrário.